0# CAPA 24.6.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
edio 2431 - ano 48  n 25
24 de junho de 2015

[ descrio da imagem: Foto, do rosto, de Marcelo Odebrecht, presidente e herdeiro da Odebrecht. Com a mo direita no queixo, apoiando a cabea. Olhar srio, para baixo.]
LAVA-JATO
A QUEDA DO PRNCIPE DOS EMPREITEIROS
A priso de Marcelo Odebrecht leva a investigao do escndalo da Petrobras ao patamar mais alto do poder na era Lula.

[outros ttulos: parte superior da capa]
O DIA D DA OPERAO DO JUIZ MORO
* A Polcia Federal prende Otvio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez
* Mensagens interceptadas pela PF mostram que "Brahma" era o nome-cdigo de Lula
* Agentes recolhem provas nas empresas envolvidas


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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 24.6.14

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  EM BUSCA DE LIES
     1#3 ENTREVISTA  PENNY PRITZKER  RETIREM OS OBSTCULOS
     1#4 LYA LUFT  A VIDA REAL
     1#5 LEITOR
     1#6 BLOGOSFERA

1#1 VEJA.COM
FURACO CARA
Aos 22 anos, a modelo britnica Cara Delevingne conseguiu realizar sua sonhada transio das passarelas para Hollywood. Querida de grifes como Chanel e Burberry, a bela de sobrancelhas marcantes nasceu em uma tradicional famlia rica britnica e reforou o poder financeiro do cl: em 2014 ela ficou entre as modelos mais bem pagas do mundo da revista Forbes, com uma soma de 3,5 milhes de dlares. J no cinema, aps alguns papeis pequenos, ela finalmente se tornou protagonista no filme Cidades de Papel, baseado no livro de John Green. Com mais quatro longas na agenda para este ano e uma vida amorosa movimentada e livre, com meninos e meninas, Cara est prestes a se tornar uma bercelebridade da cultura jovem. 

O HOMEM QUE NO CONSEGUIA PARAR
O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ocupa o quarto lugar no ranking dos distrbios psiquitricos mais comuns, atingindo 3% da populao mundial. Quem padece da doena  acometido por pensamentos intrusivos ou ideias recorrentes. Foi preciso um livro para que o ingls David Adam, de 43 anos, editor da revista cientfica Nature, revelasse (at mesmo a seus pais e amigos) que sofre de TOC desde o fim da adolescncia. Em O Homem que No Conseguia Parar, recm-lanado no Brasil pela editora Objetiva, Adam compartilha sua dramtica experincia, desde a primeira crise dentro de um banheiro pblico, onde ele se viu tomado pelo medo de uma infeco pelo vrus HIV. "Tornei-me o retrato da compulso", diz o autor em entrevista ao site de VEJA. "Se eu me arranhava, levava o objeto para casa, colocava luvas e passava horas analisando o material para ter certeza de que no estava sujo com gotas de sangue. A certeza, claro, nunca chegava." A reportagem tambm esmia os tratamentos a que Adam recorreu na tentativa de se livrar do transtorno.

A PRIMAVERA DAS EXPOSIES
Uma primavera, quinze exposies.  assim que o filsofo Eduardo Wolf, colaborador de VEJA, tem ocupado os intervalos de seu perodo de estudos na Europa, onde se especializa no grego Aristteles. Em ensaio para o site, ele relata as descobertas que fez em mostras de grandes nomes da arte antiga ou moderna, como Nicolas Poussin e Giorgio Morandi, que tomam importantes museus de metrpoles como Paris, Londres ou Roma  onde tesouros da arte barroca servem de fio condutor para um mergulho na cidade.


1#2 CARTA AO LEITOR  EM BUSCA DE LIES
Para o Brasil, que exatamente agora discute as bases de seu primeiro  isso mesmo, primeiro  currculo nacional,  inestimvel o valor das lies contidas na reportagem especial desta edio de VEJA, feita pela jornalista Monica Weinberg, chefe da sucursal de VEJA no Rio de Janeiro e editora de Educao da revista. Monica j foi observar de perto o funcionamento dos melhores sistemas de ensino do mundo. Na China, ela testemunhou o efeito poderoso da meritocracia como indicador de qualidade do trabalho dos professores e dos diretores. Escolas melhores engolem escolas piores, e os mestres vencedores acumulam os cargos e os ganhos dos perdedores. O sistema  implacvel, mas catapultou o desempenho escolar das crianas chinesas dos ltimos para os primeiros lugares nos rankings internacionais de avaliao de ensino. Na Coreia do Sul, Monica flagrou avs de crianas aboletadas nas janelas das escolas incentivando seus netos, como torcedores de um time de futebol dando nimo aos jogadores no gramado. A imagem ilustra o sucesso do sistema que tirou uma nao do analfabetismo endmico e a guindou ao pdio do ensino mundial  em cinco dcadas de esforo descomunal. H trs anos, ela apresentou aos leitores brasileiros a academia de Salman Khan, o visionrio americano que est levando educao de qualidade via internet a todos os cantos do planeta. A reportagem desta semana  resultado da incurso de Monica Weinberg nas escolas de vanguarda da Finlndia, pas que, mesmo liderando todos os estudos comparativos mundiais de qualidade, est em pleno preparo de uma segunda revoluo educacional, cujas bases j inspiram instituies de ponta dos Estados Unidos, da Inglaterra, do Japo e da Europa continental. O triunfo educacional da Finlndia tem como um de seus alicerces a valorizao dos professores, e os melhores recebem tratamento de heris nacionais. Boa lio para o Brasil. 


1#3 ENTREVISTA  PENNY PRITZKER  RETIREM OS OBSTCULOS
A secretria de Comrcio dos Estados Unidos diz que o momento  oportuno para o Brasil reduzir entraves e criar condies para que as empresas possam competir internacionalmente.
DUDA TEIXEIRA

Penny Pritzker tem fortuna estimada em 2,5 bilhes de dlares. Sua famlia, famosa por ser proprietria do grupo hoteleiro Hyatt e pela filantropia em educao, cincia e cultura, instituiu e nomeia o prmio, considerado o Nobel da arquitetura, que anualmente entrega 100 000 dlares a um ganhador. Penny tem larga experincia como executiva de empresas e forte envolvimento poltico com o Partido Democrata. Em 2008, ela comandou as finanas da campanha  Presidncia de um ento desconhecido senador pelo estado de sua cidade natal, Chicago, chamado Barack Obama. Nomeada por Obama para o cargo de secretria de Comrcio, Penny quebrou a cultura protecionista do Partido Democrata e negocia tratados de livre-comrcio com a Unio Europeia e com um grupo de doze pases do Pacfico, incluindo Austrlia, Peru e Japo. Com 56 anos, triatleta, ela sofreu um acidente de bicicleta na semana passada e no pde vir a So Paulo para o US-Brazil CEO Frum. Penny Pritzker conversou com VEJA de Washington, por telefone. 

Os Estados Unidos j conseguiram se recuperar totalmente da crise de 2008 e 2009? 
Fizemos muito progresso desde ento. Nos ltimos 63 meses, cerca de 12,6 milhes de postos de trabalho foram criados. O PIB est crescendo em vrios de nossos setores. O que escuto dos nossos empresrios  que eles se sentem confortveis sobre o estado da economia americana, mas querem mais. Precisamos saber o que podemos fazer para melhorar ainda mais o que tem caminhado de maneira satisfatria. 

Como o comrcio com outros pases tem contribudo para essa recuperao? 
A histria recente nos mostra que as exportaes so uma parte importante do crescimento econmico dos Estados Unidos. Um tero do aumento do PIB desde 2009 se deve ao incremento das vendas ao exterior. Alm disso, 47% das nossas exportaes so para parceiros que integram tratados de livre-comrcio. Por esse motivo, estamos negociando com vigor a assinatura de novos acordos. Entre as trs ou quatro coisas essenciais que podemos fazer para continuar crescendo, como pedem nossos CEOs, esto a obteno da aprovao no Congresso da Trade Promotion Authority (TPA, na sigla em ingls, que d ao presidente Barack Obama poder para acelerar a assinatura de acordos comerciais), a Parceria Transpacfico (acordo em negociao com pases da regio do Oceano Pacfico, que representam 40% do PIB mundial) e, por fim, a concluso do tratado de livre-comrcio com a Europa. 

Entre os membros do Partido Democrata,  comum a crtica de que os tratados de livre-comrcio estimulam a importao de produtos e, com isso, fecham postos de trabalho em fbricas nos Estados Unidos. Isso  verdade? 
Pode at ser em alguns casos, mas a realidade  que, no cmputo total, h um aumento dos postos de trabalho devido s exportaes. No setor de manufaturados, que  o mais criticado em tratados de livre-comrcio, temos um superavit nas trocas com os nossos parceiros comerciais que fazem parte desses tratados. Tambm sabemos que as indstrias voltadas para atender aos mercados no exterior suportam 6 milhes de empregos. Em termos mais gerais, h pelo menos 11,6 milhes de postos de trabalho que dependem diretamente das exportaes. Quanto s importaes, ns as vemos mais comumente como uma oportunidade de obter produtos mais baratos, o que ajuda a fortalecer o poder de compra das famlias americanas. No vemos isso como uma ameaa, mas como uma oportunidade. 

Outra alegao comum  que empresas de outros pases contratariam funcionrios em condies insalubres de trabalho, o que seria uma concorrncia desleal aos americanos... 
Os requisitos presentes nas clusulas obrigam todos os pases a respeitar as condies de trabalho, garantindo um salrio mnimo e lugares seguros aos empregados. Essa  uma maneira de assegurar que no ocorram abusos nem explorao das pessoas. Essas exigncias so boas para os habitantes de outas naes e tambm so positivas para a competitividade americana. 

Se a Parceria Transpacfico no for concluda, isso reduzir a influncia americana em uma regio que j est sendo intensamente cortejada pela China? 
No vou nem me atrever a responder a essa pergunta. Continuo otimista quanto a termos o TPA e, com ele, a Parceria Transpacfico. No vou nem especular sobre uma alternativa. A regio do Pacfico, com a qual temos a maior negociao atualmente em curso, nos daria acesso a uma classe mdia que vai crescer de 500 milhes para 3,2 bilhes de pessoas em apenas quinze anos. Logo,  importantssimo que consigamos concluir o acordo. Estou muito focada nisso desde que assumi meu posto neste governo. Temos sempre de lembrar que 95% dos consumidores do planeta vivem fora dos Estados Unidos. 

Em meio a negociaes com a Europa e com os pases da regio do Pacfico, qual  a importncia de melhorar as relaes com o Brasil, um dos propsitos da sua visita a So Paulo, que foi cancelada? 
O comrcio entre os dois pases  considervel. Ficou em torno de 73 bilhes de dlares no ano passado. O Brasil  nosso nono maior parceiro comercial de mercadorias. As exportaes americanas para o Brasil incluem produtos de controle de espao areo, derivados de carvo, mquinas e substncias qumicas, servios em comunicaes e de tecnologia da informao. O Brasil nos vende muitas coisas, aproximadamente 30,3 bilhes de dlares, entre as quais petrleo e gs, ferro e ao, produtos qumicos e aeronaves. So nmeros de 2013, que poderiam aumentar. Os Estados Unidos ainda so o maior mercado do mundo para bens manufaturados brasileiros, como mquinas e aeronaves, mas os volumes ainda no so to altos. 

Quanto esse comrcio pode crescer? 
No sabemos que dimenso ele poderia ter. Para isso, seria necessrio remover muitos obstculos, como burocracia e processos reguladores pouco claros. Alm disso, nossos padres mtricos no esto alinhados. Uma companhia brasileira que fabrica uma mquina segundo o padro nacional no pode vend-la aos Estados Unidos. Tambm h um grande atraso em relao s alfndegas. 

O Brasil s pode assinar novos acordos de livre-comrcio via Mercosul. Isso seria outro impedimento? 
Nos 27 anos que passei no setor privado, aprendi que podemos resolver muitos impedimentos sem necessariamente ter um acordo de livre-comrcio. Quando h muito desejo de fazer negcio, as coisas podem se resolver. Como representante de um governo, entendo que as autoridades devem trabalhar para facilitar as trocas comerciais. Com certas medidas, alguns resultados j poderiam ser alcanados a curto prazo. 

O PIB brasileiro provavelmente vai cair 1% neste ano. Isso poderia ser evitado se o Brasil fosse menos protecionista? 
Este  o momento de o Brasil solucionar esses obstculos e deixar que as suas empresas faam negcios ao redor do mundo. H tambm muitos problemas que impedem as companhias mais novas, as startups, de ter acesso aos mercados. 

Como a soluo desses obstculos poderia melhorar a vida dos brasileiros? 
Imagine que seja fcil para o Brasil vender seus bens ao redor do mundo e que no haja mais atrasos alfandegrios. Considerando a praticidade que a internet proporciona, os negcios das firmas brasileiras prosperariam rapidamente. Elas poderiam prospectar mais clientes, contratar mais funcionrios e pagar a eles salrios mais altos. Haveria mais oportunidades para o brasileiro comum. 

Neste ano, hackers chineses roubaram informaes de 4 milhes de funcionrios federais americanos. O que poderia ser feito a respeito? 
Em primeiro lugar, essas so as palavras certas. Eles roubaram dados, e, com certeza, haver consequncias legais disso. Em segundo lugar, temos de construir uma segurana ciberntica melhor. O Departamento de Comrcio est muito preocupado em aprimorar essas ferramentas, e, francamente, precisamos de mais recursos e mais pessoas para nos ajudar. O fato  que algum realmente roubou algo, e deve haver consequncias, como em qualquer sociedade civil. Essa  uma ameaa gigantesca e que no afeta somente o governo americano. 

Como o Brasil pode receber mais investimentos em explorao de petrleo e infraestrutura? 
No existe uma regra especfica para cada setor. Para ser atraente, um pas deve oferecer segurana acima de tudo. Os investidores precisam saber que haver estabilidade. Isto ,  que o sistema legal  confivel e que no tero de lidar com corrupo. 

O Brasil tem uma longa e danosa histria de corrupo. Os escndalos recentes afetam a maneira como os empresrios americanos enxergam as oportunidades aqui? 
Corrupo  algo que afugenta os CEOs em qualquer lugar do mundo. Essa prtica atrapalha os negcios internos e prejudica o crescimento econmico. Ns estamos prontos para ajudar o governo brasileiro a apoiar o desenvolvimento do Estado de Direito e do sistema legal. 

A pr-candidata democrata  Presidncia, Hillary Clinton, afirmou que as famlias americanas tm enfrentado dificuldades porque um CEO ganha 300 vezes mais que um trabalhador comum. A senhora, uma ex-CEO, concorda com mais impostos para os mais ricos? 
O que precisamos fazer  obter um aumento no salrio mdio dos americanos. Esse  o objetivo do presidente Obama. Preocupar-se com o ganho relativo, comparando CEOs e funcionrios do cho de fbrica, no faz sentido. Nosso foco est no salrio mnimo, no crescimento da economia, nos investimentos em infraestrutura, em promover trabalho para a mo de obra qualificada e em preparar os demais para atender s demandas do sculo XXI. Da surgiro as oportunidades, pois os empregos so criados pelo setor privado. Obama me instruiu a oferecer condies para o crescimento econmico.  por isso que estamos trabalhando em acordos comerciais. 

No ano passado, a senhora esteve em Kiev, terra dos seus antepassados. O comrcio pode ajudar a Ucrnia a lidar com as agresses blicas da Rssia? 
A Ucrnia tem sofrido vrias agresses militares e est atravessando uma crise financeira e econmica. Nesse segundo item, estamos tentando ajudar o governo a criar leis e tribunais para que o pas tenha uma legislao anticorrupo, um sistema de arrecadao que funcione e menos burocracia. Isso atrairia investimentos e criaria oportunidades para o cidado ucraniano. A Ucrnia tem um enorme potencial na agricultura, na rea de energia e em outros tantos setores. Conversei com autoridades do governo recentemente. Elas esto tentando transformar a economia para que o pas possa fazer negcios tanto com a Rssia quanto com o Ocidente.  uma iniciativa que eu aplaudo. 

Cerca de 90% da economia cubana  controlada pelos militares. Como os investimentos americanos podem ajudar o povo cubano sem enriquecer ainda mais os generais castristas? 
As mudanas em curso em Cuba criaro oportunidades para todos em um pas onde apenas 5% da populao tem acesso  internet e s 2 milhes, dos 11 milhes de habitantes, tm celular. Agora eles podero comprar equipamentos de telecomunicaes e tero acesso a produtos agrcolas americanos. Esse  um pas que no gera produtos suficientes sequer para si mesmo. H um novo amanhecer. No se pode subestimar o aumento do envio de dinheiro para Cuba de cubanos estabelecidos nos Estados Unidos. Isso eleva o poder de compra dos cubanos e abre a possibilidade de eles iniciarem o prprio negcio, sem depender do Estado. 


1#4 LYA LUFT  A VIDA REAL
     Em tempos de crise como esta  e crise da "braba", apenas comeando , a vida parece tornar-se mais real. Belisca, morde, derruba, atira pedra na testa da gente e apunhala o corao. Li por esses dias algo "de Bill Gates" que no deve ser novo, nem sei se  dele  mas tem o jeito de quem deu um duro danado, persistiu e venceu. Transcrevo e adapto um pouco aqui esses conselhos. "Bill Gates", convidado para paraninfar uma turma de faculdade, teria chegado, subido ao pdio, tirado do bolso um papel que leu em cinco minutos, sendo aplaudido por outros dez (ao menos essa  a lenda). 
     Eis os conselhos: "1) A vida no  fcil  acostume-se com isso; 2) O mundo no se preocupa com a sua autoestima, mas espera que voc faa alguma coisa til para ele; 3) Voc no vai ganhar 20.000 por ms assim que sair da faculdade, no ser vice-presidente da empresa com carro  disposio antes de conseguir comprar seu prprio carro com o fruto do seu trabalho; 4) Se voc acha seu professor severo, ou grosso,  espere para ver seu futuro chefe: ele no vai ter pena de voc; 5) Trabalhar meio turno, vender qualquer coisa, ser frentista ou garonete para ajudar a pagar seus estudos no  humilhante. H quem chame isso de 'oportunidade'; 6) Antes de voc nascer, seus pais talvez no fossem to crticos quanto agora, que precisam pagar suas contas, lavar suas roupas, aguentar suas insolncias, como dizer que eles so ridculos. Ento, antes de querer salvar o planeta, arrume seu quarto; 7) Se na sua escola ou faculdade no se distinguem os esforados dos preguiosos, e todos so igualmente aprovados, saiba que a vida no  assim. Na vida real, ao primeiro erro grave voc poder ir para a rua; 8) A televiso no  como a vida real. Na vida real, a gente tem de sair do barzinho ou da balada e ir para o trabalho; 9) No ria dos nerds, que os outros julgam babacas porque trabalham, estudam, se esforam. H uma boa probabilidade de um dia voc ser empregado de um deles". 
     Por que gostei tanto dessas frases? Por que as coloco como eixo desta coluna? Primeiro, porque acredito piamente em tudo isso, porque acho que estamos mais molengas, mais queixosos, mais arrogantes, menos preparados, mais exigentes, como se o mundo, os pais, e todos, nos devessem alguma coisa, nos devessem sucesso imediato e vida fcil, enriquecimento sem cansao, sucesso sem preparo  como se fssemos uns principezinhos abobados a quem todo mundo deve homenagem. Hoje em dia, principezinhos bobos homenageados de graa esto fora de moda: todos querem pelo menos ter uma faculdade, fazer algo de til e parecer gente normal. 
     Alm disso, eternos adolescentes me cansam muito, gente com mais de 20 anos bancando filhinho de papai e de mame, embora tenha sade e capacidade para estudar, trabalhar, engolir sapos como todo mundo, crescer, subir na vida e no emprego  e quem sabe comear a retribuir de alguma forma tudo o que seus pais fizeram por eles desde o primeiro dia seu no mundo. Pode ser apenas sendo gentil, educado, carinhoso, atencioso... de vez em quando. Tambm gostei do texto porque me parece muito til para os prprios pais (e professores  e quem lida com a educao em geral, to maltratada hoje neste pas): tratar os filhos (ou alunos) como coitadinhos, que no podem sentir em casa e fora dela nenhuma autoridade ou limites, nem devem ser traumatizados com notas baixas ou reprovao, no ajuda em nada. Ao contrrio, forma imaturos, eternos queixosos e injustiados que saltam de um curso ou emprego para outro, no em busca de algo melhor, mas porque o chefe fez cara feia. Sero os para sempre despreparados e irresponsveis, pois nunca lhes foi exigido nada a srio, como recompensa e punio  numa vida muito real. 
     Na lista que citei faltou uma sugesto adequada a este momento brasileiro  que seria cmico se no fosse trgico. Ela  minha: 10) Voc est entre aqueles que sentem que as coisas no Brasil andam muito esquisitas? Ento, da prxima vez, vote direito.
LYA LUFT  escritora


1#5 LEITOR
MAIORIDADE PENAL
Causa indignao e revolta a barbrie cometida no Piau, relatada na reportagem "Justia s para maiores" (17 de junho). A violncia se dissemina quando as leis do pas no so respeitadas. A venda nos olhos da Justia, que era para significar a sua imparcialidade, passou a ser a da cegueira constante. No podemos aceitar o que ocorre repetidamente no Brasil. Chega de tanta impunidade. 
CARLA NBIA NERY OLIVEIRA 
Fortaleza, CE 

Corajosa a reportagem de VEJA, que aborda a violncia praticada por jovens no Brasil. A reduo da maioridade penal no tem por finalidade precpua o controle da criminalidade.  possvel que ela diminua, mas no necessariamente isso se dar.  bvio que polticas pblicas sociais tm papel decisivo na reduo dos crimes, mas a populao no pode continuar refm da violncia e da criminalidade por inrcia do governo. O povo est cansado de ver reinar a impunidade no nosso pas. Muito se alega que apenas 1% dos homicdios  praticado por adolescentes, da a inefetividade da presente medida. Ora, se a taxa de esclarecimento dos homicdios no Brasil oscila entre 5% e 8%,  fcil constatar a falcia dessa estatstica. Mais realistas so os dados divulgados pela Polcia Civil do DF, pelos quais, dos 355 homicdios esclarecidos no ano de 2015, 139 tinham menores de 18 anos como autores, isto , 39% dos homicdios esclarecidos. Portanto, o problema da criminalidade juvenil  grave e a reduo da maioridade penal me parece ser a adequada medida para enfrentar com rigor essa questo. 
LAERTE BESSA 
Deputado federal (PR-DF) 
Relator da proposta de reduo da maioridade penal 
Braslia, DF  

 inadmissvel algum tirar a vida de outra pessoa e ficar 'encarcerado' no mximo trs anos. J passou da hora de reduzir a maioridade penal para 16 anos. Cidado com essa idade tem plena conscincia do que faz. 
WELLINGTON JORGE FERREIRA 
Braslia (DF), via tablete  

No sou direitista, muito menos fascista. No conheo a violncia e os horrores produzidos por ela atravs de teses. Conheo porque, alm de estud-la, trabalhei mais de trinta anos na segurana pblica, e, no dia a dia, vivenciei situaes que mudaram para sempre a realidade de uma famlia por causa da violncia. Comungo da ideia de que o investimento na educao  a sada para mudarmos o panorama nacional da violncia e termos um desenvolvimento semelhante ao dos pases de Primeiro Mundo. Mas  algo que demanda tempo e polticas educacionais corretas. O povo brasileiro exige mudanas agora. O menor infrator respira o ar da impunidade. A reduo da maioridade no acabar com os crimes, mas permitir que aquele que praticou algo, que feriu a norma legal possa ser retirado da convivncia da sociedade para que no volte a matar, a roubar ou a estuprar. O resto  hipocrisia. 
CARLOS ALBERTO DAVID DOS SANTOS 
Coronel PM da reserva 
Ex-comandante-geral da PM/MS e ex-presidente do Conselho Nacional dos Comandantes-Gerais PM-BM 
Por e-mail 

Fiquei chocada com a posio de VEJA de apoiar, escancaradamente em sua capa, a reduo da maioridade penal. Ningum nasce bandido. Os governantes do pas propem uma mudana de lei para punir adolescentes em conflito com essa lei, investem tempo e provocam discusses. Querem colocar curativo na ferida, mas no tratar a causa. Antes de falar das consequncias,  preciso olhar, estudar, analisar o porqu dessa realidade. O adolescente infrator no nasceu bandido. Em catorze, quinze, dezesseis anos, o que poderia ter sido investido nele para que o futuro fosse diferente? Escolas mais preparadas, projetos de contraturno para ocupar o tempo ocioso, acesso  cultura, incentivo ao esporte, ao protagonismo  tudo isso no seria um caminho mais largo? Quem est discutindo o currculo das escolas, enquanto apresentamos o pior ensino mdio do mundo? Dos que iniciam o curso, apenas 40% terminam. Por que isso no est sendo discutido, j que a evaso escolar permite aos adolescentes traar caminhos paralelos? E, se aprovada a reduo da maioridade penal, para onde sero encaminhados os infratores? Aos presdios abarrotados de pessoas que entram graduadas e saem com doutorado em novos crimes?  necessrio pensar urgentemente em polticas pblicas para crianas e adolescentes que garantam seus direitos, por meio dos quais eles possam aprender seus deveres. Cada um, como sujeito que nasceu cidado; no bandido. 
SCHEILA CRISTINA FRAINER YOSHIMURA 
Conselheira dos Direitos da Criana e do Adolescente de Florianpolis (SC) 

Uma coisa  debater com profundidade uma eventual mudana de graduao no tempo de internao para adolescentes que cometem crimes hediondos; outra coisa  perguntar "Vo ficar impunes?", induzindo a uma percepo equivocada, como se trs anos de privao de liberdade, em plena adolescncia, fosse "impunidade". O fato de Champinha estar retido ainda hoje com laudo psiquitrico mostra como, mesmo sem mudar a lei,  possvel resolver os casos de distrbio mental. Restariam, no Estado de So Paulo, ento, menos de 3% dos internados que cometeram crimes hediondos. Vamos discutir esses casos, em  vez de uma deciso ineficaz e pouco inteligente de rebaixar a idade penal para 16 anos, o que deixaria felizes as faces criminais que dominam os presdios. Ou temos a iluso de que, no "inferno brasileiro", haveria prises especiais adequadas para tantos adolescentes?  pena que pouco se divulguem os casos de xito no trato do ato infracional, como o caso da gesto compartilhada da Fundao Casa com cerca de vinte ONGs no Estado de So Paulo. 
JOS ROBERTO ROSA 
Coordenador da Pastoral do Menor de Sorocaba (SP) 

Se considerarmos a idade atual dos menores na capa de VEJA, podemos supor que, em 2003, no incio do governo Lula, G.V.S. tinha 5 anos; I.V.I., 3; J.S.R., 4; e B.F.O., 3. Em doze anos, Lula e Dilma tiveram tempo de sobra para dar a essas "crianas" condies para que no se tornassem "vtimas da sociedade". E, doze anos depois, no querem a reduo da idade penal, alegando que esses meninos precisam de escola e educao. O que eles fizeram quando esses bandidos estavam na idade certa para ser educados? Chega de demagogia barata. 
CNDIDA LUISA ALVES DE ALMEIDA 
So Paulo, SP 

O QUE ACONTECEU COM ELES?
Alguns leitores escreveram para perguntar que fim levaram Jon Venables e Robert Thompson (nas fotos acima), condenados  priso, aos 11 anos, por sequestro, tortura e assassinato de James Bulger, um menino de 2 anos, em 1993, na Inglaterra. Oito anos depois, ambos ganharam liberdade condicional, que durar pelo resto de suas vidas, e receberam nova identidade. No h notcia de nenhuma nova condenao de Thompson, que anos depois foi reconhecido trabalhando como segurana privado numa partida de futebol. J Venables, hoje com 32 anos, foi detido duas vezes em 2008: uma por se envolver numa briga de rua enquanto estava bbado e outra por porte de cocana. Em 2010, foi condenado a dois anos de priso por fazer download e distribuir pornografia envolvendo crianas a partir de 8 anos. Depois de cumprir a pena, obteve sua quarta identidade. Costuma frequentar bares e discotecas e estava inscrito num site de namoros on-line at ser descoberto, em janeiro deste ano.  

CLUDIO LOTTENBERG  
Concordo com o competente doutor Cludio Lottenberg, presidente do Hospital Albert Einstein ("O mdico  um individualista", Entrevista, 17 de junho), e reforo que a medicina brasileira de diagnstico  muito fraca e pouco eficaz. Com raras excees, os mdicos de linha de frente so arrogantes, poucos olham na cara do paciente, poucos fazem perguntas, poucos aceitam perguntas, pedem um monte de exames desnecessrios e muitas vezes no chegam a um diagnstico. 
PEDRO RONALDO PEREIRA 
Florianpolis, SC 

Brilhante a entrevista com o mdico Cludio Lottenberg, especialmente quando ele descreve, com sinceridade, a angstia com o diagnstico de catarata. De fato, percebo a falta de sensibilidade de alguns mdicos ao lidar com o doente durante o tratamento. Esquecem-se de que naquela ocasio o ser humano est fragilizado, triste, vulnervel e com medo, por mais simples que parea a enfermidade. O tratamento humanizado de um mdico vale mais que qualquer coquetel medicamentoso. 
VANESSA COSTA 
Rio de Janeiro, RJ  

Alentadora a entrevista com o mdico Cludio Lottenberg, gestor do Hospital Israelita Albert Einstein. Quando um executivo de sucesso comercial e social defende a humanizao da medicina e a f como instrumento indispensvel  gesto, constatamos que  de fato a solidariedade, unida  opo pelo respeito inegocivel ao outro, que deve mover o mundo. 
ARNON BEZERRA 
Deputado federal (PTB-CE) 
Braslia, DF 

H afirmaes na entrevista do doutor Cludio Lottenberg que merecem esclarecimento. Em primeiro lugar, ele elogia o programa Mais Mdicos, atribuindo-lhe uma amplitude que, ao contrrio do que sugere, no o engrandece, mas pe em risco o futuro da medicina brasileira. Medidas previstas na lei do Mais Mdicos afetam o ensino mdico, estimulando a proliferao de cursos de graduao e de residncia mdica sem infraestrutura e com corpo docente de baixa qualidade. Com isso, o pas ver alunos mal preparados se tornarem mdicos e educadores com pouca formao. Tambm  improcedente chamar a classe mdica do pas de acomodada. Lembramos ao doutor Lottenberg que esse sentimento inexiste entre os mdicos brasileiros, em sua imensa maioria profissionais comprometidos com os pacientes, atendendo em condies desfavorveis na rede pblica. Finalmente, ao classificar o mdico como "individualista", o entrevistado exagera, generaliza e atinge os compromissos hipocrticos da categoria com a sociedade. Sua defesa da humanizao da assistncia erra o foco. Ele se esquece de que o distanciamento entre mdico e paciente decorre, sobretudo, do descaso da gesto, que no valoriza o profissional e, muitas vezes, lhe recusa condies para cumprir seu papel com dignidade. Vale sublinhar ainda que os mdicos entendem ser importante resgatar o Sistema nico de Sade (SUS) e acabar com os abusos cometidos pelos planos de assistncia privada, essas, sim, posturas que permitiro ao mdico e ao paciente, juntos, lutar contra a doena e em favor da vida. 
CARLOS VITAL TAVARES CORRA LIMA 
Presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) 
Braslia, DF 

BIOGRAFIAS 
O Supremo Tribunal Federal, em deciso integral e sbia, entende que a liberdade de expresso  uma conquista do povo brasileiro, e esta no deve ser suprimida do nosso conhecimento, principalmente para atender a fins comerciais ("A histria libertada", 17 de junho). O movimento Procure Saber, idealizado por muitos artistas, tentou retirar o nosso direito  informao cultural  to importante na construo de uma nao igualitria. Mas como poderemos ter o conhecimento de certos fatos de nossos dolos se os prprios protagonistas tentam escond-los desautorizando suas biografias? 
ELDIO VIEIRA MILHOMENS JNIOR 
Fortaleza, CE 

Os ministros do STF, ao exaltar a liberdade de expresso, esqueceram-se da privacidade do cidado. A privacidade  to importante quanto a liberdade, ou mais. Desde quando vasculhar e divulgar a vida particular de algum pode ser classificado como liberdade de expresso? 
FLAVIO DA ROSA 
So Leopoldo, RS 

J.R. GUZZO 
 bastante surpreendente a falta de propsito ou clareza do artigo "Os ricos agradecem" (17 de junho), de J.R. Guzzo, a comear por uma declarao de evidente inverdade sobre o assunto abordado: "(...) no existe, no momento, sequer um pedao de papel a ser discutido". Ser que o colunista no toma o texto da Constituio brasileira como um "pedao de papel" de referncia considervel? Pois a Constituio prev, desde 1988, no artigo 153, inciso VII, o imposto sobre grandes fortunas (IGF), que nunca foi regulamentado. Esse imposto j  tradicionalmente cobrado na Frana e em alguns outros pases europeus. Os que no o fazem o substituem na prtica pela tributao progressiva do patrimnio (property tax) e da renda (income tax), e, principalmente, pelas taxaes que incidem sobre as heranas (inheritance tax ou estate tax). De forma que projetos, modelos e definies prvias j existem de sobra. Acredito que ningum defende a ideia de que o imposto sobre grandes fortunas deva configurar como instrumento definitivo de redistribuio de renda, mas indiscutivelmente o montante dessa arrecadao pode ser considerado como contribuio concreta para desafogar o Errio, se tomada como medida emergencial entre outras, incluindo o realmente mais que necessrio corte nas despesas pblicas. Fica difcil considerar como srio o primitivo argumento do colunista, a quem caberia perguntar: qual  o impedimento de tomar as duas medidas em conjunto? No momento em que J.R. Guzzo se pe no papel de paladino contra a taxao das grandes fortunas brasileiras, os ricos, e s eles, tambm lhe rendem tributos de gratido. 
SILVANA MARIA ROCHA DE OLIVEIRA 
Vila Velha, ES 

LULA E AS EMPREITEIRAS 
Enfim, as investigaes chegaram ao ex-presidente Lula, restando apenas comprovar a relao entre as doaes ao Instituto Lula e as roubalheiras na Petrobras ("A arca do ex-presidente...", 17 de junho). Lula continuar dizendo, cinicamente, que no sabia de nada? Os 4,5 milhes de reais por algumas palestras e doaes, pagos pela empreiteira Camargo Corra, tero de ser claramente explicados para que a sociedade tenha pleno conhecimento da realidade para fazer sua seleo poltica no futuro. 
EDSON GUERREIRO DOS REIS 
Belm, PA 

VIVIANY BELEBONI 
Sensacional a Conversa "A cruz da discrdia" (17 de junho), com a modelo transexual Viviany Beleboni. Naquela cruz poderia estar o brasileiro enganado pelas lideranas irresponsveis que promoveram uma bacanal populista e agora crucificam a todos para pagar uma conta que sair caro para vrias geraes. FERNANDO RIZZATO Belo Horizonte (MG), via tablet 

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 BLOGOSFERA
EDITADO POR KTIA PERIN kperin@abril.com.be 

DE NOVA YORK
CAIO BLINDER
TRUMP
Donald Trump, que no tem nada de aprendiz de celebridade, anunciou que seu topete entrou na maratona presidencial. "Eu sou rico e estou concorrendo  Presidncia." A frase custou, mas finalmente saiu. O bilionrio flerta com a corrida  Casa Branca desde 1988. www.veja.com/denovayork   

INOVAO 
JULIO VASCONCELOS  
BANCOS 
Os bancos de um futuro prximo sero muito melhores e mais baratos se forem totalmente disponveis na internet. Eles estaro no ar "24 por 7" na palma de nossas mos. Seus crebros contaro com modelos estatsticos de big data, eles tero uma aparncia simples e elegante, e um atendimento instantneo e simptico vai caracterizar sua personalidade. www.veja.com/inovacao  

QUANTO DRAMA! 
PATRCIA VILLALBA 
NOVELA 
Depois de uma grande dose de contemporaneidade com Sete Vidas, a faixa das 6 volta a uma histria de poca. Alm do Tempo estreia em 13 de julho com uma trama sobre o amor que atravessa geraes, tema j abordado pela autora Elizabeth Jhin em novelas anteriores. Desta vez, a ao se passa no sculo XIX, numa cidadezinha fictcia do sul do pas. Um jovem casal, separado por famlias inimigas, se reencontra 150 anos depois, www.veja.com/quantodrama 

MUNDO LIVRE
CHINA
No programa Mundo Livre, o advogado Jos Ricardo dos Santos Luz Jr., especialista em relaes comerciais com a China, descreve cuidados que precisam ser tomados ao fazer negcios com o pas asitico. "A primeira sugesto  ter muita pacincia. Deve-se sempre aprofundar o relacionamento com os chineses antes de assinar um contrato", explica. E h tambm uma srie de etiquetas a cumprir durante reunies e almoos de trabalho. "Uma delas diz respeito ao brinde, que o chins sempre far com o copo abaixo do copo do convidado.  uma forma de dizer que o convidado  mais importante do que ele naquela situao. Um sinal de respeito." www.veja.com/tveja 

CALDO DE CULTURA
A cantora e compositora Maria Gad conversa com o jornalista Srgio Martins sobre o lanamento de seu terceiro CD, Guela. "Nesse CD eu tentei contar uma histria com comeo, meio e fim", diz. "Cheguei a um ponto em que me vi limitada. Eu j no estava confortvel com a forma como estava cantando, e minha musicalidade j no me supria, ento comecei a ouvir outras coisas e passei a me encantar pela guitarra e pelas possibilidades que ela traz. Com isso tudo veio a vontade de fazer esse novo disco." www.veja.com/tveja 

SOBRE PALAVRAS
TATARANETO
O substantivo "tataraneto", que existe tambm em espanhol (tataranieto),  uma criao ibrica bem mais antiga do que seu sinnimo "tetraneto": apareceu ainda no sculo XVI, enquanto o ltimo  uma palavra moderna, de fins do sculo XIX. H evidncias de que a curiosa sonoridade de "tataraneto" tenha surgido com base na antiga palavra "trasneto" (o mesmo que "bisneto"), hoje em desuso, formada com o elemento latino trans  "para alm de". De trasneto se fez "traneto", em seguida duplicado para "tratraneto"  aquele que  bisneto duas vezes. Para ir de tratraneto a tataraneto, a distncia foi pequena. "Tatarav" foi um termo criado depois, por analogia com tataraneto. www.veja.com/sobrepalavras

* Esta pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com
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2# PANORAMA 24.6.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  POR ORA, A FELICIDADE
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM GIANCARLO DEL MONACO  BARRACO ENTRE ERUDITOS
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  POR ORA, A FELICIDADE
O maior temor das curdas que lutam contra o Isis  ser capturadas vivas.

Diz-se que uma delas, de cabelos loiros e sorriso cativante, matou 100 terroristas do Estado Islmico (Isis) antes de ser capturada e decapitada. Outra, uma morena de 19 anos, despediu-se pelo rdio e matou-se com a ltima bala de sua arma ao se ver cercada, aps uma batalha, evitando, assim, cair nas mos do grupo, conhecido pelos mtodos cruis de execuo e por vender mulheres como escravas sexuais. Algumas histrias sobre os feitos das guerrilheiras do YPG, o brao armado na Sria do PKK, um partido separatista curdo com atuao tambm na Turquia e no Iraque, so exageradas. A "exterminadora" de terroristas, por exemplo, est viva: ela foi fotografada com o mesmo sorriso cativante neste ms em Kobani, uma cidade da Sria recuperada pelos curdos no incio do ano. Mas  fato que h muitas mulheres combatendo nas fileiras do YPG, algumas em batalhes exclusivamente femininos. Elas se orgulham de pertencer  nica sociedade de maioria muulmana do Oriente Mdio que d liberdade s mulheres. A combatente retratada em uma estrada com uma bandeira do grupo, na semana passada, comemorava a retomada da cidade de Tal Abyad, que rompeu a rota de suprimentos da Turquia para Raqqa, a capital de fato do Isis, com a ajuda de bombardeios americanos. Os Estados Unidos consideram o PKK um grupo terrorista, mas renderam-se  lgica de que "o inimigo do meu inimigo  meu amigo". Nos acampamentos do YPG, as guerrilheiras so submetidas a uma doutrinao marxista que rivaliza em intensidade com a lavagem cerebral religiosa do Isis. A causa curda, por sua aura feminista e anticapitalista, atrai voluntrias europeias. O califado tambm. Por outros motivos, e no para lutar, mas para se casar com terroristas. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
Jos Ely de Miranda, o Zito, ex-volante paulista, bicampeo do mundo pela seleo brasileira (1958 e 1962) e pelo Santos (1962 e 1963). Mentor de Pel, foi um dos responsveis pela descoberta de Robinho e Neymar. Nascido em Roseira, tornou-se jogador profissional em 1948, no Taubat. Contratado pelo Santos em 1952, em poucos anos ajudaria o time a se transformar em uma das maiores equipes de futebol de todos os tempos. Marcou 57 gols nos mais de 700 jogos que disputou pelo clube at se aposentar, em 1967. Lder inconteste em campo  durante as partidas, costumava dar bronca at mesmo no rei , era chamado de Gerente. Fora dos gramados tambm fez jus ao apelido, atuando em diversos cargos da diretoria santista. Autor do histrico gol da virada do Brasil contra a Checoslovquia na final da Copa de 62, o ex-jogador, paciente de Alzheimer, sofreu em 2014 um acidente vascular cerebral (AVC) que debilitou sua sade de modo irreversvel. Dia 14, aos 82 anos, de insuficincia respiratria, em Santos. 

Olacyr de Moraes, empresrio paulista que ficou conhecido como o rei da soja por haver se transformado, na dcada de 80, no maior produtor mundial individual do gro. Atuou tambm nos ramos bancrio, de construo civil e de explorao mineral. Com cerca de quarenta empresas, Olacyr, que nasceu em Itpolis, tornou-se o mais jovem brasileiro a integrar a lista de bilionrios da revista americana Forbes (estava, na ocasio, na casa dos 50 anos, e tinha uma fortuna avaliada em 1,2 bilho de dlares). Sua trajetria profissional comeou em uma pequena empresa de cargas, fundada ao lado do pai e do irmo. Em 1957, a Argeu Augusto de Moraes e Filhos Ltda. deu origem  Constran, uma das maiores construtoras do pas, hoje propriedade da UTC, de Ricardo Pessoa, envolvido no escndalo do petrolo. Os negcios de Olacyr comearam a declinar em meados da dcada de 90. A situao o obrigou a se desfazer de quase todo o seu patrimnio. Divorciado, passou a ter uma intensa vida noturna, sempre se fazendo acompanhar de mulheres bem mais jovens, a quem chamava de "amigas". Dia 16, aos 84 anos, em decorrncia de um cncer no pncreas, em So Paulo. 

Fernando Rocha Brant, letrista mineiro, parceiro de Milton Nascimento em algumas de suas composies de maior sucesso, como Travessia, Saudade dos Avies da Panair e Cano da Amrica. Seu nome est incontornavelmente associado ao Clube da Esquina, grupo que se formou na dcada de 60 com Milton e outros compositores, como os irmos L e Mrcio Borges e Beto Guedes. Nascido em Caldas e formado em direito, jamais havia escrito uma letra de msica quando fez Travessia, que ficou em segundo lugar no 2 Festival Internacional da Cano (1967). Brant chegou a ensaiar uma carreira jornalstica, mas a parceria com Milton Nascimento acabou prevalecendo. Desde 2012 tratava de um cncer de fgado. Dia 12, aos 68 anos, de complicaes de um transplante do rgo, em Belo Horizonte. 

Antnio Paes de Andrade, poltico cearense filiado ao PMDB, ex-presidente da Cmara Federal (1989-1991). No cargo, assumiu vrias vezes a Presidncia da Repblica durante o governo de Jos Sarney. Foi embaixador em Portugal de 2003 a 2007. Participou da resistncia  ditadura militar. Dia 17, aos 88 anos, de falncia de mltiplos rgos, em Braslia. 


2#3 CONVERSA COM GIANCARLO DEL MONACO  BARRACO ENTRE ERUDITOS
Um dos mais renomados diretores de pera da Europa, o italiano, que trabalhou com o maestro carioca John Neschling em Otello, no Teatro Municipal de So Paulo, conta por que achou a experincia desastrosa.

Como o senhor avalia o estilo de regncia de John Neschling? 
Ele  um mau regente. Em Otello, no conhecia a partitura. O tenor principal, Gregory Kunde, ficou escandalizado com a maneira de Neschling conduzir a pera. Em Verona, alguns anos atrs, os msicos no queriam tocar com ele porque no o compreendiam. Ningum entende o que ele faz com as mos! 

Se Neschling  to ruim, como pode ser o mais conceituado regente brasileiro? 
Ele tem muito poder poltico em So Paulo. Tem amigos importantes no Brasil e, graas a essas relaes, conseguiu a pea, no por suas qualidades. A poltica  poderosa, mas no entende nada de regentes. Fui diretor-geral de teatros sete vezes. Posso dizer que Neschling  um pssimo maestro. 

Por que o senhor acredita que o Teatro Municipal precisa ser investigado? 
O que aconteceu comigo foi incrvel. Eu trabalhei que nem um louco. Gostaria de saber como conseguiram fazer todos os figurinos errados a ponto de termos de jogar tudo fora. Eu protestei como qualquer diretor cnico protestaria. Eles no gostaram. Aquilo no  um teatro,  uma priso. Neschling acha que  o ditador de So Paulo. 

Como o senhor o descreveria? 
Ele prprio se descreve com perfeio. Uma vez, eu disse que ele gostava de ser dominado pela esposa. Ele respondeu: "Eu amo ser dominado pela minha esposa!". 

Voltaria a trabalhar em So Paulo? 
Nunca! Inventaram que eu tratava mal as pessoas.  mentira, e tenho testemunhas que podem provar. Neschling diz que eu chamei um tenor de porco. No  verdade. Mas ele tinha mais de 180 quilos! Eu disse que no seria possvel contratar algum com 180 quilos e diabtico, porque a produo exigia muito esforo fsico. Ele poderia morrer no palco! 


2#4 NMEROS

3100 dlares acima da mdia nacional  o que ganha por ano um adulto americano que, mesmo vindo de uma famlia pobre, passou a infncia em regies dos Estados Unidos consideradas favorveis  ascenso social, como os arredores de Chicago, segundo apontou um estudo de Harvard. 
2830 dlares abaixo da mdia receberia esse mesmo adulto se tivesse crescido, por exemplo, em Manhattan, Nova York. O estudo analisou dados de mais de 5 milhes de americanos. 
5 caractersticas tm as regies que influenciam positivamente uma criana, a ponto de ela conseguir uma renda futura melhor que a mdia, diz o estudo: baixa segregao por renda e raa, pouca desigualdade social, boa qualidade da educao, baixas taxas de crimes violentos e alto nmero de lares com pais e mes. 


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Balana comercial -  Por causa da alta do dlar, pela primeira vez neste ano o resultado das exportaes superou o das importaes.  
sia-Pacfico -  A regio ultrapassou a Europa e j  a segunda mais rica do mundo. Segundo o Boston Consulting Group, em breve ser a primeira, superando a Amrica do Norte. 
Smen estrangeiro -  Aumentou 540% em um ano a importao de amostras dos Estados Unidos, com informaes mais detalhadas sobre o doador do que as disponveis no material nacional.  

DESCE 
Neymar -  A Justia espanhola vai investigar o jogador por fraude e corrupo na sua transferncia do Santos para o Barcelona, em 2013. 
Gordura trans -  Os Estados Unidos decidiram banir a substncia, causadora de problemas cardiovasculares. A indstria ter trs anos para elimin-la de produtos como margarina e biscoitos.  
Dlar zimbabuano -  Depois que a cotao da moeda chegou a 35 quadrilhes para 1 dlar americano, o governo decidiu substitu-la pelo dlar de verdade. 


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 LAVA-JATO
PARA MELAR
A Kroll, contratada pela CPI da Petrobras por inspirao de Eduardo Cunha para analisar dados sigilosos obtidos pela comisso, descobriu contas secretas de Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa no exterior que no haviam sido listadas por eles no acordo de delao premiada. Advogados de empreiteiros e polticos que tiveram acesso ao material tentaro invalidar as delaes de ambos por esse motivo. 

FAMLIA LARANJA 1 
O Ministrio Pblico Federal j tem provas de que Fernando Baiano, o operador de parte do PMDB, usava sua me e sua mulher como laranjas. 

FAMLIA LARANJA 2 
A propsito, Fernando Baiano continua irredutvel em topar uma delao premiada. Mas na semana passada chegou a ele um recado. Algo como " bom falar que a sua casa caiu". O cerco est se fechando. 

GOVERNO "FROUXO" 
Possesso e tenso na sexta-feira 19, logo aps a priso dos dois maiores empreiteiros do Brasil, Lula espumava de raiva. Aos interlocutores, culpou o governo Dilma, qualificado de "frouxo" por ter deixado a situao chegar a esse ponto. 

A SALVO 
A Polcia Federal  um raro rgo pblico que no tem reclamao do aperto de Joaquim Levy: no teve, at agora, nenhum centavo de seu oramento contingenciado. H anos a PF vinha funcionando com um corte de 40%. 

 GOVERNO 
EX-MISS DE PRESTGIO 
H um ms, descobriu-se que a modelo Cibele Mazzo, uma obscura ex-miss, foi nomeada por George Hilton para ocupar uma assessoria na Secretaria Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor. Logo que o fato se tornou pblico, Dilma mandou que o ministro dos Esportes demitisse sua pupila  e assim foi feito. Mas a moa tem prestgio. Hilton arranjou um jeito de empreg-la na Autoridade Pblica Olmpica.  

UMA REUNIO NO PLANALTO 
Semanas atrs, no Palcio do Planalto, Dilma Rousseff discutia com lderes de partidos aliados medidas do ajuste fiscal e, sobretudo, o veto  nova frmula do fator previdencirio que fora aprovada pelo Congresso, quando foi interpelada por Jos Guimares. "Essa deciso pode afetar sua popularidade", disse o lder do governo na Cmara. Irritada, Dilma devolveu: "A popularidade  minha e eu fao com ela o que eu quiser", de acordo com o relato feito por um dos participantes. Desde ento, esse argumento foi provisoriamente aposentado nas mesas palacianas. A propsito, a popularidade de Dilma nunca esteve to baixa. E o Palcio do Planalto no espera melhora nem a mdio prazo. Na primeira semana de julho, o Ibope sai a campo para uma pesquisa nacional.  

 CMARA 
A FROTA 
 para l de generosa a frota de carros que Eduardo Cunha usa no Rio de Janeiro: Porsche Cayenne, Touareg, Corolla, Edge, Tucson, Pajero Sport. Todos so abastecidos pela Cmara, com dinheiro da verba de gabinete de Cunha.  

POSTO DA TORRE 
A propsito, Eduardo Cunha, por absoluta coincidncia,  cliente do Posto da Torre, em Braslia. O posto de gasolina servia de entreposto de entrega de dinheiro vivo enviado por doleiros a polticos de Braslia, conforme o prprio gerente do estabelecimento confirmou em depoimento  Justia Federal no Paran. Segundo ele, ali tambm funcionava uma casa de cmbio comandada por um cunhado do doleiro Carlos Chater, o dono e um dos quatro doleiros investigados na Lava-Jato. 

 BRASIL 
VIDA DE PALESTRANTE 
Joaquim Barbosa est cobrando em mdia 120.000 reais por palestra, fora as despesas que os contratantes tm de pagar a dois assessores. Tudo pago antecipadamente. No contrato esto proibidas gravaes ou filmagens em que ele aparea.  

 INFRAESTRUTURA 
PADRO LESMA 
A Usina Hidreltrica de So Luiz do Tapajs, no Par, j foi classificada como "estratgica, de interesse pblico, estruturante e prioritria" em documentos oficiais. Num dos balanos do PAG, em 2012, constava que sua concluso se daria em 2017. O tempo passou, passou, e qual  a situao atual das obras? A usina nem saiu do papel. Tcnicos estimam hoje que s deve ficar pronta em 2022. 

 ECONOMIA 
EM NEGOCIAO 
Nizan Guanaes recebeu uma proposta de compra do grupo ABC feita por Martin Sorrell, CEO do gigante britnico WPP. As conversas no envolvem a DM9, mas todas as outras agncias de negcio do grupo esto includas. Pelo que est na mesa, a WPP ficaria com 60% das aes, mas Nizan continuaria  frente da gesto. A proposta financeira da WPP j est sendo analisada. Nizan, no entanto, nega a negociao. 

NO CADE 1 
O Cade acaba de abrir uma investigao sobre um potencial excesso de concentrao econmica nas participaes de Ablio Diniz no Carrefour, na BRF e nas sessenta maiores lojas do Po de Acar, nas quais ele  dono dos imveis. Abilio tem cerca de 10 bilhes de reais investidos nesses trs ativos. 

NO CADE 2 
No s as relaes administrativas entre o Carrefour e a BRF sero investigadas. O Cade quer apurar tambm se o fato de Abilio ser dono desses sessenta imveis favoreceria o Carrefour, que, supostamente, poderia monitorar o faturamento das principais lojas do Po de Acar. O Cade pediu informaes a Abilio, que ter de responder a elas at quarta-feira. 

VAI PIORAR 
Resignado, o Palcio do Planalto conta com uma taxa de desemprego de dois dgitos at o fim do ano. 

INTERESSE ANTIGO 
Aparentemente, o Bradesco desponta como o favorito para levar o HSBC Brasil. Isso s ser confirmado no ms que vem. Mas um fato  incontestvel: o apetite do banco presidido por Luiz Carlos Trabuco pelo concorrente  antigo. Nos ltimos anos, no foram poucas as vezes em que diretores do Bradesco visitavam o HSBC e perguntavam algo na linha do "quando quiserem vender, nos procurem". 

 OLIMPADA 
A ROMENA 
A ex-ginasta romena Nadia Comaneci, fenmeno olmpico com nove medalhas conquistadas em 1976 (Montreal) e 1980 (Moscou), est fechando contrato com o SporTV. Vai comentar a Olimpada de 2016. 

A FESTA EM NMEROS 
A abertura da Olimpada de 2016 comeou a tomar forma. Os organizadores estimam precisar de 10.000 figurantes e 12.000 fantasias para a cerimnia no Maracan. 

 MSICA 
MAIS UM ADEUS 
A sada de Xuxa da Globo fez com que a apresentadora quisesse tambm sair da Som Livre, brao fonogrfico do grupo e para onde ela retornou no ano passado. Xuxa est negociando uma resciso do contrato de cinco anos. Por ele, a gravadora no  mais obrigada a promover seus discos e DVDs a partir do momento em que ela no integre mais o elenco da Globo. Se conseguir a resciso, Xuxa ir para a Sony Music. 


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

A caracterstica definidora de um governo ruim  no querer melhorar. O governo ruim se intoxica com a prpria mediocridade. Vicia-se nela. - JOS SERRA, senador pelo PSDB-SR sobre a imensa incapacidade do governo Dilma de enxergar sadas para a crise econmica e poltica. 

Me algeme, mas voc vai ferrar todo o Chile." - ARTURO VIDAL, meia da seleo chilena de futebol, tentando driblar o policial que o abordou depois que ele, dirigindo alcoolizado, bateu sua Ferrari. O jogador, que atua na Juventus, da Itlia, acabou passando uma noite na priso. 

A glamourizao da imagem do meu pai faz com que os jovens acreditem que ser traficante  bom. Isso  perigosssimo." - JUAN PABLO ESCOBAR, arquiteto colombiano, filho de Pablo Escobar (19494993), que se tornou conhecido no comando do Cartel de Medelln, em entrevista ao jornal O Globo. Seu livro sobre o pai acaba de ser publicado no Brasil. 

Obama s tem um ano e meio de Casa Branca; no vai criar uma nova estratgia para o Brasil. Ha problemas demais na mesa dele: Estado Islmico, Iraque, China, Rssia e Ucrnia." - IAN BREMMER, cientista poltico americano, fundador da consultoria de risco Eurasia, ao admitir,  Folha de S.Paulo, sua baixa expectativa em relao  visita de Dilma Rousseff aos Estados Unidos, prevista para o fim deste ms. 

Todos os nossos presidentes tomam posse muito vigorosos e logo vemos que seus cabelos ficam mais brancos. Tenho uma vantagem: ningum ver meus cabelos embranquecerem na Casa Branca. Eu os tinjo h anos! - HILLARY CLINTON, 67 anos, ironizando os que a consideram com idade muito avanada para disputar a sucesso de Barack Obama, durante o anncio oficial de sua candidatura s prvias do partido Democrata.

Transar  fcil. Voc pode encontrar uma pessoa em cinco segundos. Mas, se quiser encontrar algum para conversar, e ser voc mesma, as opes ficam muito mais escassas. - MILEY CYRUS, cantora americana, na revista Time. 

EU no escolho personagem pensando se uma hora ela vai ficar pelada e, em outra, vestida." - PAOLLA OLIVEIRA, atriz, na coletiva de apresentao do elenco de Alm do Tempo, novela das 18h que estreia na Rede Globo em 13 de julho. Na trama, Paolla - que apareceu nua no papel de uma prostituta na minissrie Felizes para Sempre?, exibida s 23h - interpretar uma vil condizente com o horrio.

Antigamente, para ser cineasta, era preciso ter uma cmera 35mm, refletores de luz e uma moviola. Hoje, com um aparelho celular, somos todos iguais." - ZELITO VIANA, diretor e produtor de cinema, no Valor Econmico. 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto dos esforos para fazer avanar o ensino no mundo 
O homem no pode se tornar um verdadeiro homem seno pela educao. - IMMANUEL KANT, monumento da filosofia alem (1724-1804).
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3# BRASIL 24.6.14

     3#1 O PENLTIMO DEGRAU
     3#2 13 EXPLICAES QUE DILMA PRECISA DAR
     3#3 PELO FIM DA IMPUNIDADE

3#1 O PENLTIMO DEGRAU
A Polcia Federal prende os donos e executivos de mais duas empreiteiras, atinge o topo da cadeia de comando do esquema de corrupo da Petrobras e est a um passo do ex-presidente Lula.
RODRIGO RANGEL, DANIEL PEREIRA E ROBSON BONIN

     A partir das primeiras delaes premiadas de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, e do doleiro Alberto Youssef, os responsveis pela Operao Lava-Jato se deram conta de que estavam lidando com um caso que s ocorre uma vez na vida de um policial, de um promotor ou de um juiz.  medida que os depoimentos se sucediam e mais provas iam sendo encontradas, o esquema foi tomando a forma de uma gigantesca operao poltico-partidria e empresarial destinada a levantar fundos com contratos esprios de empresas com a Petrobras. As razes do esquema comearam a ficar cada vez mais profundas, enquanto sua copa passava a abranger polticos postados em galhos cada vez mais altos. Em abril, Carlos Fernando Lima, um dos procuradores da Lava-Jato, disse em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que a investigao se tornara to ampla que chegaria a "mares nunca dantes navegados". Na sexta-feira passada, a Lava-Jato aproou para praias que pareciam inatingveis, prendendo os presidentes das duas maiores empreiteiras do Brasil  Marcelo Odebrecht, presidente e herdeiro da empresa que leva seu sobrenome, e Otvio Azevedo, o principal executivo da Andrade Gutierrez. O nome da operao da Polcia Federal que fez as prises no podia ser mais ilustrativo das pretenses dos investigadores  "Erga Omnes", a expresso latina que significa "para todos" e nos tratados jurdicos  usada para proclamar um dos pilares do sistema democrtico que diz que ningum est acima da lei. 
     A Lava-Jato chegou ao topo? No existe mais ningum acima da lei em seu radar investigativo? A resposta  no. A operao chegou aos mais altos suspeitos do brao empresarial do esquema que desviou pelo menos 6 bilhes de reais dos cofres da Petrobras. O brao poltico, acreditam os investigadores, pode subir mais um degrau alm do ocupado, por exemplo, por Joo Vaccari Neto, tesoureiro do PT, preso em Curitiba. Os presos da semana passada podem fornecer as informaes que ainda faltam para que a lei identifique e alcance quem comandava o brao poltico do esquema criminoso. Quem permitia o funcionamento de uma engrenagem que abastecia PT, PMDB e PP com dinheiro sujo? Disse o delegado da Polcia Federal Igor Romrio de Paula: "A ideia  dar um recado claro de que a lei vale para todos, no importa o tamanho da empresa, seu destaque na sociedade, sua capacidade de influncia e seu poder econmico". 
     O juiz Srgio Moro determinou a priso de Marcelo Odebrecht e Otvio Azevedo, os presidentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, por considerar que os dois "capitaneavam" o cartel de empresas que ganhava contratos da Petrobras em troca do pagamento de propina a funcionrios da estatal e a polticos. Em seu despacho, Moro registrou que delatores do petrolo haviam dito que a Odebrecht pagara subornos no exterior por meio da Constructora del Sur, sediada no Panam. A Odebrecht vinha negando ter relao com a Del Sur. Moro tambm anotou a existncia de um depsito feito pela Odebrecht numa conta no exterior controlada por Pedro Barusco, o delator que servia ao PT e prometeu devolver aos cofres pblicos 97 milhes de dlares. O juiz determinou a priso de outros cinco executivos, trs da Odebrecht e dois da Andrade Gutierrez, e expediu 38 mandados de busca e apreenso. As duas empreiteiras so acusadas de pagar mais de 700 milhes de reais em propinas. 
     Resta pegar a estrela principal no firmamento governista. Os procuradores e os delegados tm elementos suficientes para desconfiar que a estrela dava expediente no Palcio do Planalto. H apuraes em andamento sobre os pagamentos milionrios recebidos pelas empresas de consultoria dos ex-ministros da Casa Civil Jos Dirceu e Antonio Palocci. Os investigadores agora j podem mirar um degrau acima  o ponto de convergncia entre corruptos e corruptores. Segundo o Ministrio Pblico, o esquema de desvio de recursos da Petrobras passou a funcionar de forma organizada em 2004, no primeiro mandato de Lula. Todos os diretores da estatal presos e investigados por participao no esquema foram nomeados pelo petista. Ex-diretor de Abastecimento e delator do petrolo, Paulo Roberto Costa era chamado carinhosamente de "Paulinho" por Lula. Essa relao de proximidade se estendia a empreiteiros presos no ano passado, como Ricardo Pessoa, da UTC, e Lo Pinheiro, da OAS, que sempre encontravam pretextos para dar dinheiro ao ex-presidente, fossem palestras ou viagens de negcios em que ele atuava como propagandista das empresas. A Marcelo Odebrecht atribui-se a liderana no meio empresarial da campanha "Volta, Lula", que, no ano passado, tinha como objetivo minar a candidatura de Dilma Rousseff em favor da busca de um terceiro mandato para Lula. 
     Mensagens descobertas pela Polcia Federal mostram que os empreiteiros exerciam influncia sobre a agenda de Lula e usavam o prestgio dele para facilitar negcios em diversos pases. Em contrapartida, como se sabe, o ex-presidente e alguns de seus familiares foram muito bem recompensados (veja o quadro nas pgs. 48 e 49). Numa mensagem enviada em novembro de 2012, um executivo da OAS alerta Lo Pinheiro sobre a possibilidade de Lula viajar ao Catar, onde a construtora teria um "grande volume de negcios", e pede a Pinheiro que cheque a informao. "Devo estar com ele quinta-feira  tarde. Falo com ele", respondeu Pinheiro. Em novembro de 2012, Lula viajou a vrios pases e defendeu interesses da Odebrecht e da Camargo Corra. Um ms antes, em outubro de 2012, Pinheiro relata ao mesmo executivo da OAS que esteve pessoalmente com Lula. Na mensagem, chama o ex-presidente pelo apelido, "Brahma"  no se sabe se a referncia   marca de cerveja ou ao deus hindu que forma com Vishnu e Shiva o triunvirato responsvel pela criao, manuteno e destruio do mundo. Seja como for, Lula-Brahma realizaria algum servio na frica. "Estive essa semana com o Brahma. Contou-me que quem esteve aqui com ele foi o presidente da Guin Equatorial, pedindo-lhe apoio sobre o problema do filho. Falou tambm que estava indo com a Camargo para Moambique x Hidreltrica x frica do Sul." 
     Lula-Brahma tinha seus privilgios. "Lo, colocamos o avio  disposio do Lula para sair amanh ao meio-dia. Seria bom checar com o Paulo Okamotto se  conveniente irmos no mesmo avio", diz um executivo da OAS. Paulo Okamotto  presidente do Instituto Lula e zelador das contas pessoais do ex-presidente. Convocado para depor na CPI da Petrobras, ele vive repetindo que a relao do chefe com as empreiteiras  transparente. Desde que deixou a Presidncia, Lula viajou vrias vezes ao exterior para divulgar suas propostas de combate  fome e  misria e defender os interesses de grandes empresas brasileiras em pases da frica e da Amrica Latina. Em 2011, Lula e o companheiro Dirceu foram ao Panam, onde defenderam interesses da Odebrecht. No mesmo ano, numa viagem internacional em que representou o governo brasileiro, Lula incluiu na comitiva um diretor da Odebrecht, Alexandrino Alencar, que tambm foi preso na ltima sexta-feira, acusado por um dos delatores do petrolo de pagar propina no exterior. 
     Lula no atua como lobista s por amor  ptria. Conforme VEJA revelou, a OAS reformou um stio usado por ele no interior de So Paulo. Alm disso, construiu no Guaruj o trplex que pertence  famlia do ex-presidente. As empreiteiras tambm o contrataram por valores que, segundo Okamotto, chegam a 300.000 reais por palestra. Havia uma simbiose perfeita entre as partes. Foi por isso que os empreiteiros se jogaram de corpo e alma no movimento "Volta, Lula". As mensagens descobertas pela Polcia Federal so cristalinas. Nelas, aparecem restries pesadas  presidente Dilma Rousseff e uma torcida desabrida pelo retorno do petista ao poder. "O clima no est bom para o governo, o modelo d sinais de esgotamento e o estilo da nmero um tem boa parte da culpa", diz um executivo da OAS em dezembro de 2012. Em novembro de 2013, a queixa se repete. "A agenda nem de longe produz os efeitos das anteriores do governo Brahma (A senhora no leva jeito, discurso fraco, confuso e desarticulado, falta de carisma)." 
     A partir de 2013, Lula fez questo de vazar para a imprensa que os empresrios estavam insatisfeitos com os rumos do governo Dilma. A presidente,  ento, passou a receber alguns deles em audincia. De nada adiantou. Nos bastidores, o "Volta, Lula" avanou em ritmo frentico. Em abril de 2014, a seis meses da sucesso presidencial, a prpria Dilma confidenciou a auxiliares o temor de ser substituda como candidata do PT. A mudana no ocorreu. Foi a primeira frustrao dos empreiteiros. A segunda se deu em novembro do ano passado, quando a primeira leva de empresrios e executivos foi presa pela Polcia Federal. Eram evidentes os sinais de que o petrolo rua. Foi nesse perodo que Marcelo Odebrecht avisou aos seus contatos no PT e no governo: "No cairei sozinho". Se o maior e mais importante empreiteiro do pas cumprir a palavra, a estrela-guia do lado governista do balco ser mesmo a pea que falta para que no Brasil a justia seja mesmo Erga Omnes. 

"BRAHMA", O "NOSSO AMIGO" 
As mensagens descobertas pela Polcia Federal nos telefones de Lo Pinheiro, o ex-presidente da OAS, no deixam dvidas sobre a proximidade dos empreiteiros envolvidos no escndalo de corrupo da Petrobras com Lula. O ex-presidente da Repblica - apelidado de "Brahma" -  tratado pelos empresrios como um auxiliar capaz de viabilizar negcios no Brasil e em outros pases. Os empreiteiros cuidavam da agenda do ex-presidente, marcavam audincias e colocavam seus jatos particulares  disposio dele - tudo feito com discrio. Lula era devidamente remunerado atravs de palestras. 

A FAMLIA E AS EMPREITEIRAS 
A parceria do ex-presidente Lula com os empresrios da Odebrecht e da Andrade Gutierrez rende dividendos para as duas partes desde a dcada de 90. As empreiteiras ganharam bilhes de reais com o esquema de corrupo na Petrobras. Do outro lado, com a ajuda dos empreiteiros, a filha do ex-presidente morou no exterior, o filho ficou milionrio e o sobrinho virou um empresrio de sucesso.

Morando em Paris 
A primeira filha do ex-presidente, Lurian Cordeiro, tornou-se conhecida nas eleies de 1989, quando sua me, Miriam Cordeiro, apareceu no programa de campanha de Fernando Collor. Lurian foi usada pela me para atacar Lula, numa farsa armada pela equipe de Collor e desmascarada logo depois. Nos anos 90, quando morar no exterior ainda era um luxo de poucos, a amizade dos Lula da Silva com a famlia do empreiteiro Srgio Andrade, scio da Andrade Gutierrez, permitiu que Lurian passasse uma temporada em Paris, distante do tenso e tumultuado ambiente poltico no Brasil. A temporada na Europa foi bancada por Marlia Andrade, uma das herdeiras da construtora Andrade Gutierrez, que hospedou a filha de Lula durante todo o perodo. A estada de Lurian no apartamento da famlia Andrade ainda incluiu uma cirurgia custeada pela filha do empreiteiro.

Um grande negcio 
Em 2008, o grupo Telemar, do empresrio Srgio Andrade, dono da construtora Andrade Gutierrez, comprou a operadora Brasil Telecom. O negcio deu origem  operadora de telefonia Oi  e s pde ser concretizado graas a uma mudana na legislao feita pelo governo petista. Antes disso, o mesmo Srgio Andrade foi responsvel pela mudana de status social do empresrio Fbio Lus da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente. Formado em biologia, Fbio era monitor do Zoolgico de So Paulo at a posse do pai. Em 2003, no primeiro ano de governo, criou uma pequena empresa de entretenimento batizada de Gamecorp. Em 2005, Srgio Andrade comprou parte da empresa de Lulinha por 5,2 milhes de reais. Da noite para o dia, o filho do ex-presidente tornou-se milionrio.

Empreiteiro africano
Sobrinho de Lula, Taiguara Rodrigues dos Santos levava at 2009 uma vida simples. Dono de uma firma especializada em fechar varandas de apartamentos, dirigia um carro velho, morava num pequeno apartamento e respondia a processos por passar cheques sem fundo na praa. A Odebrecht, porm, percebeu que o sobrinho do presidente tinha outros talentos. Em 2012, Taiguara criou uma empresa de engenharia que foi logo contratada pela Odebrecht para trabalhar na construo de uma hidreltrica em Angola. A parceria foi firmada no mesmo ano em que a empreiteira conseguiu no BNDES um financiamento para realizar o projeto na frica. Hoje, o sobrinho de Lula mora em uma cobertura e dirige um carro importado. 
COM REPORTAGEM DE HUGO MARQUES E ADRIANO CEOLIN


3#2 13 EXPLICAES QUE DILMA PRECISA DAR
1- A presidente ocultou dvidas do governo com o Banco do Brasil, o BNDES e o FGTS? 
2- A presidente permitiu que despesas da Unio com programas sociais e benefcios trabalhistas fossem pagas pela Caixa Econmica Federal? 
3- A presidente consentiu que o FGTS bancasse, em nome da Unio, despesas do Minha Casa, Minha Vida?  
4- A presidente deixou que o BNDES cobrisse despesas da Unio com o Programa de Sustentao do Investimento? 
5- A presidente ignorou as prioridades e as metas do Projeto de Lei de Diretrizes Oramentarias de 2014? 
6- A presidente deu aval ao FGTS para que ele honrasse gastos do Minha Casa, Minha Vida em nome da Unio? 
7- A presidente autorizou o repasse de recursos no previstos no Oramento a estatais? 
8- A presidente usou recursos no previstos no Oramento para investir em estatais? 
9- A presidente se furtou a cortar despesas, deixando 28,5 bilhes de reais a descoberto no Oramento, mesmo  sabendo que a arrecadao estava em queda? 
10- A presidente condicionou a liberao de recursos para emendas parlamentares  aprovao da lei que isentou o governo da obrigao de cumprir a meta fiscal?  
11- A presidente inscreveu de forma irregular na rubrica Restos a Pagar do Oramento a quantia de 1,37 bilho de reais, referente ao Minha Casa, Minha Vida? 
12- A presidente omitiu do relatrio fiscal de 2014 despesas da Unio pagas pelo Banco do Brasil, pelo BNDES e pelo FGTS? 
13- A presidente chancelou manobras contbeis que tiraram a credibilidade das informaes do Plano Plurianual 2012-2015? 

O Tribunal de Contas da Unio est prestes a julgar as contas do governo e, pela primeira vez na histria, intima a Presidncia a dizer se cometeu ilegalidades na gesto do dinheiro pblico.
ANA CLARA COSTA

     A semana passada foi cruel para a presidente Dilma Rousseff. A tese defendida por seu governo sobre a maioridade penal foi derrotada no Congresso, e ela se viu obrigada a vetar uma mudana nas regras da Previdncia que seria vantajosa para quem est em vias de se aposentar, o que a indisps com sindicatos e setores de seu prprio partido, o PT. O golpe mais duro, no entanto, veio do Tribunal de Contas da Unio (TCU), que analisa a cada ano as despesas do governo. A corte intimou a presidente a esclarecer sua responsabilidade em treze manobras fiscais e oramentarias nas quais se encontraram indcios de irregularidade. Dilma ter trinta dias para se explicar. Seus argumentos sero avaliados pelo tribunal, e, em meados do segundo semestre, as contas de 2014 devem ir a julgamento. Nunca antes uma ordem semelhante foi imposta a um presidente  e isso indica o tamanho do descrdito que pesa sobre as contas de um governo que, nos quatro primeiros anos de mandato, foi prdigo em "pedaladas", truques contbeis e voluntarismo no uso do dinheiro pblico. Caso Dilma no convena os ministros do TCU e as contas sejam rejeitadas  o que s aconteceu uma vez na histria da Repblica, em 1937, durante o governo de Getlio Vargas , as consequncias podem ser severas. Cabe ao Congresso a palavra final sobre as contas do governo. Mas uma sentena desfavorvel do tribunal pode criar as condies polticas, hoje inexistentes, para que Dilma se veja enredada num processo por ato de improbidade administrativa, ou mesmo numa ao de impeachment. 
      verdade que a semana poderia ter sido ainda pior. At tera-feira, o que estava no horizonte era o julgamento sumrio das contas pelo TCU. Sabia-se que o ministro-relator, Augusto Nardes, estava inclinado a proferir um voto desfavorvel a Dilma, e poderia arrastar consigo uma maioria. Ministros de Estado se sucederam em visitas ao tribunal. Estiveram na corte Joaquim Levy, da Fazenda, Aloizio Mercadante, da Casa Civil, Nelson Barbosa, do Planejamento, Jaques Wagner, da Defesa, e Eduardo Braga, de Minas e Energia. O advogado-geral da Unio, Lus Incio Adams, manteve-se num frentico vaivm entre os gabinetes do TCU. Na tera-feira, os nove ministros se reuniram at altas horas para definir o plano de ao. Surgiu da a deciso de pedir explicaes a Dilma. Isso evita que, caso a sentena final seja pela rejeio das contas, o TCU seja acusado de ter cerceado o direito de defesa do governo. 
     Ao mergulhar na contabilidade da Unio, o TCU encontrou 31 itens duvidosos, dos quais treze foram claramente tachados de irregularidades. So esses que compem o questionrio enviado a Dilma. Dois atos so destacados pelo tribunal, por levar a assinatura da prpria presidente. So de novembro de 2014, quando j estava claro que a meta fiscal estabelecida pela Lei Oramentaria no incio do ano no poderia ser alcanada. Naquele momento, embora a obrigao fosse fechar as portas do cofre e contingenciar gastos da ordem de 28,5 bilhes de reais, Dilma fez o contrrio: assinou um decreto liberando 10 bilhes de reais em emendas parlamentares e condicionou a liberao dessas emendas  aprovao de uma mudana na lei que a isentava de cumprir a meta fiscal. "Foi um desprestgio para o Congresso e para a sociedade", diz Nardes a VEJA. 
     Alm dessas manobras, esto na mira dos tcnicos do TCU as j notrias pedaladas  que constituem a prtica de atrasar repasses a rgos da administrao  e a sua verso ilegal, que consiste em deixar que bancos pblicos efetuem pagamentos que cabem  Unio, configurando emprstimo explicitamente vetado pela legislao. O economista Jos Roberto Afonso, um dos autores da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), sancionada em 2000, afirma que as pedaladas so indcios de m gesto, mas no ensejam processo penal. "Quando criamos a lei, no imaginvamos que a prtica se tomaria to corriqueira no Executivo. Diante do que se v hoje,  imperativo endurecer as regras", diz ele. Autorizar o uso de bancos pblicos para efetuar pagamentos em nome da Unio, contudo, fere diversos artigos da LRF. 
     Nesta sexta-feira, veio  tona que o ex-secretrio do Tesouro Arno Augustin assinou, em 30 de dezembro de 2014, um documento em que assume responsabilidade por todos os repasses de recursos do Tesouro previstos ou no no Oramento. A nota tcnica certamente ser usada por Dilma em sua defesa. Mas no h burocrata que possa servir de anteparo no caso das duas medidas que levam a assinatura da prpria presidente. E o conjunto da obra no favorece o governo. A corte considera grave, por exemplo, a aprovao de investimentos fora do escopo oramentrio dada a empresas estatais, que no precisam prestar contas do que foi investido. Diz Nardes: "Diante de tudo o que se v na Petrobras, no podemos admitir isso. Temos de dar um basta". 
COLABOROU LUS LIMA


3#3 PELO FIM DA IMPUNIDADE
Pela primeira vez, uma proposta para mudar a lei brasileira para menores infratores, uma das mais lenientes do mundo, avana no Congresso.
MARIANA BARROS E KALLEO COURA

     Cada vez que um menor de 18 anos comete um crime brbaro, a onda de indignao que ele provoca traz consigo a discusso sobre a reduo da maioridade penal  deve-se diminuir ou no a idade a partir da qual um jovem tem de responder por seus atos na Justia? O debate comea inflamado e morre aos poucos, at que os projetos de lei que ele inspirou sejam sepultados em alguma gaveta do Congresso. Desde 1992, 49 propostas de emenda constitucional sobre o tema j foram apresentadas no Legislativo, sem nunca chegar at o plenrio. Na semana passada, a Cmara dos Deputados deu um passo importante para mudar essa histria. 
     Na quarta-feira, uma comisso especial criada para analisar o tema aprovou um relatrio propondo que jovens que cometeram crimes graves (veja o quadro na pg. 60) respondam por eles na Justia a partir dos 16 anos. Hoje, a legislao determina que menores de 18 anos sejam julgados no pelo Cdigo Penal, mas pelo Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA), que prev trs anos de internao como punio mxima para qualquer crime. Esse prazo vale, inclusive, para casos como o dos jovens do Piau que, confessadamente, estupraram e torturaram quatro meninas, levando  morte uma delas (leia o texto ao lado). Se punidos, eles devero estar de volta s ruas j em 2018  e na condio de rus primrios, uma vez que o ECA probe qualquer registro criminal no caso de menores infratores. J pela proposta aprovada na comisso da Cmara na semana passada, esses menores seriam julgados da mesma forma que o adulto que participou do estupro com eles, o que significa que seriam sentenciados a bem mais do que trs anos de deteno e perderiam a primariedade. Cumpririam a pena em instituies separadas das destinadas aos adultos. A proposta da comisso tem data para ser votada no plenrio da Cmara  o prximo dia 30. 
     O governo Dilma Rousseff  contrrio  reduo da maioridade. Desde maio, o Palcio do Planalto vinha tentando derrubar a proposta da comisso, que tem no presidente da Cmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), seu principal patrocinador. Para isso, recorreu ao Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (Ipea), que no comeo da semana apresentou um estudo para tentar mostrar que o ECA seria mais rigoroso do que se pensa  tese que no encontra respaldo na realidade. Na semana passada, VEJA trouxe um levantamento que mostra que a legislao brasileira para menores  uma das mais lenientes do mundo. O documento do Ipea, no entanto, teve o mrito de trazer  luz um dado importante que at agora no havia sido divulgado: dos 23.000 menores atualmente internados no Brasil, a porcentagem dos que cometeram assassinatos ou crimes hediondos est longe de ser desprezvel   de 12,7%. Quando percebeu que a possibilidade de o texto avanar era grande, o governo chegou a procurar o PSDB para tentar fechar um acordo em torno de um projeto que mantivesse a maioridade penal em 18 anos mas aumentasse o tempo de internao dos menores infratores. Eduardo Cunha, porm, costurou primeiro. Com o apoio de outros partidos  e de uma parcela do PSDB , levou adiante a proposta de reduo da maioridade para crimes hediondos, aprovada por 21 votos a 6. 
     Outros projetos relacionados ao tema podem ser votados em breve. Nenhum deles colide com a proposta aprovada na semana passada  antes, eles a complementam. O que prev o aumento do prazo de internao para menores, de autoria do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), deve ir a plenrio at agosto. No Senado, h mais dois projetos. O de autoria do senador Jos Serra (PSDB-SP) tem teor semelhante ao de Alckmin, sendo a nica diferena o fato de que, no de Serra, o aumento do prazo de internao vale para todos os menores que cometeram crimes hediondos, enquanto, no de Alckmin, apenas para os maiores de 16 anos que tenham cometido crimes hediondos ou equiparados, como trfico. Deve chegar ao plenrio j nesta semana. Como no muda a Constituio  prev apenas alteraes no ECA e em outras leis , precisa da maioria simples dos votos para passar. Outro, do senador Acio Neves (PSDB-MG), torna crime hediondo o uso de menores para cometimento de delitos e triplica as penas mximas dos adultos nesses casos, mas no deve ser votado to cedo  est parado numa comisso. 
     Como a proposta da Cmara implica uma mudana constitucional, o percurso que ela tem pela frente  intrincado. Para seguir adiante, precisa obter o apoio de mais de 60% dos deputados no prximo dia 30  ou seja, 308 dos 513 votos. Se isso ocorrer, o texto ser novamente votado na Cmara e seguir para o Senado, onde ter de passar por outras duas votaes em plenrio. L, tambm precisar ter o apoio de mais de 60% dos parlamentares, o que corresponde a 49 dos 81 senadores. Vencidas todas essas etapas, ele se tornar lei constitucional e comear a valer imediatamente. O impacto no ser pequeno: mantida a proposta aprovada pela comisso, a relao de crimes pelos quais os maiores de 16 anos passaro a responder como adultos representa 60% dos delitos cometidos por menores no Brasil. 

QUANDO A PENA MXIMA  MNIMA
     Ao menos um dos quatro jovens que confessaram ter estuprado, espancado e tentado assassinar quatro meninas em Castelo do Piau no deveria estar nas ruas. No dia 7 de maio, vinte dias antes do crime, I.V.I., de 15 anos, apontado como o mais violento do grupo, havia sido preso em flagrante pelo furto do notebook de uma mulher. At sua me implorou para que ele continuasse detido, e a Polcia Civil fez o pedido  Justia. Mas, no dia 19, o promotor local Cezrio Cavalcante decidiu que I.V.I. no deveria ser internado. Quando furtou o notebook, I.V.I. j estava bem distante da imagem de menor inconsequente, levado pela ingenuidade a cometer um delito. No comeo deste ano, havia ficado 45 dias apreendido por ter golpeado com uma tesoura um homem numa tentativa de roubo. Era a sua segunda passagem por uma casa de correo. Em abril, no entanto, foi perdoado pela Justia. O caso dele ilustra bem o que crticos do atual sistema apontam: mesmo a pena mxima de  trs anos de internao raramente  cumprida - um levantamento do Ministrio Pblico de So Paulo mostrou que apenas oito de mais de 1500 internos da Fundao Casa ficaram mais do que dois anos na instituio. 
     I.V.I. e os outros trs menores acusados de participao no estupro coletivo de Castelo do Piau  G.V.S., 17, F.J.C.J., 16, e B.F.O., 15 - permanecem isolados em Teresina. Eles devem ser condenados  pena mxima, de trs anos de recluso. A sentena precisa ser dada at o dia 11 de julho, quando se completam 45 dias de internao, tempo-limite definido pelo Estatuto da Criana e do Adolescente para que um menor fique sob custdia sem deciso judicial. Das quatro vtimas do grupo, do qual fazia parte tambm um adulto, uma morreu e outra continua hospitalizada. Ela teve esmagamento do crnio e perda de massa enceflica. Os mdicos ainda no sabem se ter sequelas fsicas  as emocionais so irreparveis.
FELIPE FRAZO

ENTENDA AS MUDANAS NA LEI

Como funciona a lei hoje
Menores de 18 anos que cometam qualquer crime so julgados  luz do Estatuto da Criana e do Adolescente, e no do Cdigo Penal.
Se considerados culpados, esto sujeitos a punies que vo da advertncia  internao de, no mximo, trs anos.

O que a comisso aprovou
Menores com idade entre 16 e 17 anos que tenham cometido crimes graves ou hediondos passam a ser julgados pelo Cdigo Penal e ficam sujeitos s mesmas penas que os adultos. So crimes graves ou hediondos:
 estupro
 latrocnio
 trfico de drogas
 tortura
 terrorismo
 homicdio doloso
 roubo qualificado (com arma de fogo, por exemplo)
 leso corporal grave
 leso corporal seguida de morte

O que acontecer se a proposta for aprovada pelo Congresso
ISSO MUDA - Um menor de 17 anos, 11 meses e 28 dias de idade confessou ter matado o estudante Victor Hugo Deppman em abril de 2013 para roubar seu celular, quando este chegava em casa, na volta da faculdade. Ele foi recolhido  Fundao Casa e, pela lei atual, poder permanecer l no mximo at o ano que vem, quando poder voltar para a rua, na condio de ru primrio. Com a mudana, um infrator como ele seria julgado na Justia comum por latrocnio. Condenado, pegaria entre 20 e 30 anos de priso, a ser cumprida em estabelecimento especial para menores de 18 anos.

ISSO NO MUDA - Os menores apreendidos por participar da onda de arrastes que ocorreu no Rio de Janeiro no ltimo vero foram encaminhados ao Departamento Geral de Aes Socioeducativas. Em geral, adolescentes que cometem furtos ou roubos simples no so punidos com internao, mas com medidas mais leves previstas pelo Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA). Se o Congresso aprovar o projeto, nada muda. Infratores como os participantes dos arrastes continuaro sendo julgados segundo o ECA, j que os crimes de furto e de roubo simples, assim como o de estelionato, no so considerados graves nem hediondos. 
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4# ECONOMIA 24.6.15

     4#1 O POPULISMO VENCEU
     4#2  FIM DE JOGO

4#1 O POPULISMO VENCEU
O governo facilita a obteno de aposentadoria com valor integral, sem o desgio do fator previdencirio.  boa notcia para os beneficiados  mas terrvel para o pas.
MARCELO SAKATE

     Um trabalhador brasileiro com 55 anos de idade e 36 anos de contribuio que decidisse se aposentar no incio do ms sofreria um desconto de 28% em relao ao valor integral do benefcio. O desgio ocorre por causa do chamado fator previdencirio, um indicador que, levando em conta a expectativa de vida da populao, pondera o valor a ser recebido segundo a idade e o tempo de contribuio. Esse mecanismo entrou em vigor em 1999, de forma a desestimular a aposentadoria precoce e, dessa maneira, impedir um desequilbrio ainda mais profundo nas contas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o sistema pblico de aposentadoria dos trabalhadores do setor privado. Caso desejasse receber o benefcio integral, cujo teto atual est em 4663,75 reais, esse mesmo trabalhador teria de contribuir por mais cinco anos. Na falta de uma reforma previdenciria abrangente destinada a eliminar o dficit entre contribuies e despesas com os benefcios, foi essa a maneira encontrada pelo governo Fernando Henrique Cardoso, e mantida nos anos Lula, para evitar um rombo ainda mais profundo na Previdncia. 
     A partir de agora, entretanto, tudo isso mudou. O fator previdencirio no foi extinto, como defendiam os sindicatos e alguns deputados, mas haver um esquema alternativo que facilitar o acesso ao benefcio em seu valor integral, sem desgios. Valer a regra conhecida como 85/95. As mulheres podero reivindicar a aposentadoria integral quando a soma de sua idade e o tempo de contribuio (por exemplo, 55 + 30) atingir 85. Para os homens, a soma deve ser de 95. O trabalhador que abre a reportagem precisar de dois anos na ativa para obter o valor integral. Na prtica, houve uma flexibilizao do fator previdencirio, como mostram os exemplos no quadro ao lado. O sistema do 85/95 foi aprovado originalmente no Congresso. A presidente Dilma Rousseff vetou-o, mas apresentou outro similar. A diferena  que, na medida provisria apresentada pelo governo, haver um aumento escalonado das exigncias a partir de 2017, chegando, em 2022,  soma de 90 para mulheres e de 100 para homens. O fator previdencirio continua valendo, mas, para a grande maioria das pessoas prestes a se aposentar, a nova regra ser mais favorvel. 
     Trata-se, sem dvida, de uma tima notcia para quem for beneficiado, mas, para o futuro do pas, a novidade  sombria. O Brasil possui um dos sistemas mais flexveis e benevolentes do mundo. A partir de agora, por populismo do Congresso e omisso do governo, as regras sero ainda mais relaxadas. No ano passado, o INSS arrecadou 337,5 bilhes de reais e gastou 394,2 bilhes de reais com o pagamento de benefcios a 32 milhes de pessoas. Precisou ser coberto por 56,7 bilhes de reais dos cofres do Tesouro Nacional. So recursos que poderiam ter sido aplicados em outras reas, como na sade e na educao, em programas sociais e em investimentos na infraestrutura. A tendncia  de piora continuada pelos prximos anos. Antes mesmo das mudanas, o governo projetava que o dficit do INSS chegaria a 110 bilhes de reais (ou 1,3% do PIB) em um perodo de cinco anos e continuaria subindo nas prximas dcadas. Sem reformas, o cenrio  aterrador. O rombo em 2060 chegaria a quase 10% do PIB, um nmero invivel. 
     O governo Dilma, enfraquecido politicamente e com dificuldades at mesmo para aprovar as medidas mnimas de equilbrio fiscal, resolveu mais uma vez, como tem sido a regra, jogar a bomba para o seu sucessor. Trata-se de uma "soluo momentnea", como admitiu o ministro da Previdncia Social, Carlos Gabas. Os principais desequilbrios do INSS no foram atacados, alertam especialistas, entre eles a falta de uma idade mnima e as regras permissivas para penses por morte. Segundo o economista Marcelo Caetano, do Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (Ipea), h outro risco no mensurado pelo governo, que  o aumento do nmero de aes na Justia por pessoas que se julguem lesadas. Existem ao menos duas situaes possveis. A primeira vale para trabalhadores que se aposentaram entre 1999 e a semana passada com base no fator previdencirio, mas atendiam aos requisitos da regra 85/95 e agora podem decidir pleitear o direito a receber o valor integral. O segundo caso  o de quem se aposentou mas continuou no mercado de trabalho e decide reivindicar um novo clculo do benefcio com o acrscimo das contribuies. "So aes que podem causar um grande custo fiscal", diz Caetano. 
     Enquanto Dilma d suas pedaladas, o Brasil vai ficando para trs. 

AS MUDANAS NA APOSENTADORIA
Para definir o valor dos benefcios, o governo utilizava desde 1999 uma frmula   o fator previdencirio (ndice que define o valor a ser recebido de acordo com a idade e o tempo de contribuio)  para desestimular a sada precoce do mercado de trabalho. Com as novas regras, o fator previdencirio s ser aplicado para trabalhadores que no atendam ao fator 85/95.

FATOR 85/95

MULHERES - Podem se aposentar com valor integral, e sem o desgio do fator previdencirio, quando a soma da idade com o tempo de contribuio  85.
Exemplos
 Mulher com 55 anos de idade e 30 anos de contribuio ao INSS e salrio mdio de 4663,75 reais (teto do INSS)

COMO ERA
4663,75 (reais) X 0,595 (fator) = 2774,93 Reais
Reduo de 40,5%

COMO FICOU
55 anos de idade + 30 anos de contribuio = 85
Valor integral de 4663,75 reais 

HOMENS  Podem se aposentar com valor integral, e sem o desgio do fator previdencirio, quando a soma da idade com o tempo de contribuio  95.
Exemplos
 Homem com 57 anos de idade e 38 anos de contribuio ao INSS e salrio mdio de 4663,75 reais (teto do INSS)

COMO ERA
4663,75 (reais) X 0,825 (fator) = 3847,59 Reais
Reduo de 17,5%

COMO FICOU
57 anos de idade + 38 anos de contribuio = 95
Valor integral de 4663,75 reais 

FATOR 85/95 PROGRESSIVO
A nova frmula apresentada pelo governo prev a imediata entrada em vigor do fator 85/95 e o aumento gradual da exigncia da soma da idade do trabalhador com o tempo de contribuio, de modo que, em 2022, chegue a 90 para as mulheres e 100 para os homens.

ANO  |  FATOR
2015  |  85/95
2016  |  85/95
2017  |  86/96
2018  |  86/96
2019  |  87/97
2020  |  88/98
2021  |  89/99
2022  |  90/100
Fonte: Ministrio da Previdncia

UMA CONTA EXPLOSIVA
As projees das contas da previdncia dos trabalhadores do setor privado mostram que, sem reformas profundas, o dficit ser crescente, exigindo mais aumento nos impostos.
2014
Despesas (% do PIB): 7,14%
Arrecadao (% do PIB): 6,11%

2060
Despesas (% do PIB): 15,91%
Arrecadao (% do PIB): 6,67%


4#2  FIM DE JOGO
Foram cinco meses de blefes e acusaes de lado a lado. Agora, o tempo acabou para a Grcia. Ou o pas fecha um acordo com os credores europeus ou ficar  prpria sorte.

     A Grcia vive  beira do abismo h cinco anos. Com o estouro da crise financeira internacional, secaram as fontes de financiamento fcil que deram ao governo condies de gastar alm de suas possibilidades e permitiram  populao consumir acima de seus meios. O pas, assim como Irlanda e Portugal, foi resgatado por um pacote de 245 bilhes de euros na forma de emprstimos da Unio Europeia e do Fundo Monetrio Internacional (FMI). Em contrapartida, os gregos tiveram de se comprometer com um programa de reformas. Mais de 15.000 servidores pblicos perderam o emprego, e os salrios do funcionalismo foram congelados. Impostos subiram, e as aposentadorias foram reduzidas praticamente  metade. No fim de 2014, depois de uma das recesses mais profundas registradas na histria econmica, o pas voltou a exibir sinais de crescimento. A populao, contudo, estava cansada de uma crise to profunda. No incio do ano, os eleitores deram a vitria ao Syriza, acrnimo em grego para Coalizo da Esquerda Radical, partido recm-formado que ganhou o pleito com a promessa de dar fim  austeridade. Desde ento, o novo governo desafia o acordo firmado pelo governo anterior com os colegas do bloco europeu. A Grcia, entretanto, est longe de ser capaz de se sustentar sem a ajuda externa. Para os europeus, o dinheiro s continuar chegando se as reformas no forem abandonadas. 
     H cinco meses ambos os lados permanecem irredutveis. Os negociadores gregos, liderados pelo ministro das Finanas, Yanis Varoufakis, um ex-acadmico especialista em teoria dos jogos,  acreditaram que poderiam obter concesses dos europeus apresentando um blefe: caso o pas deixe o euro, a moeda nica poder cair em descrena, ruindo a confiana na prpria coeso do bloco. "Ns, gregos, seremos um novo Lehman Brothers", tem sido sua mensagem subliminar. Na mesma linha, o primeiro-ministro e lder do Syriza, Alexis Tsipras, afirmou na semana passada: "O chamado Grexit (a sada grega do euro) no pode ser uma opo, nem para os gregos nem para a Unio Europeia. Seria um processo irreversvel e o fim da zona do euro". Os lderes das maiores economias europeias parecem estar dispostos a pagar para ver. Preferem encontrar uma soluo para a Grcia seguir no bloco, desde que no signifique abrir mo de princpios bsicos. Do contrrio, valer a pena sacrificar a Grcia como uma medida exemplar aplicada a desvios de conduta. Alm do  mais, irlandeses, portugueses e espanhis cumpriram tambm um duro pacote de ajustes. 
     Acabou o tempo para a Grcia. No prximo dia 30, vence o prazo para o pagamento de sua dvida com o FMI. O pas afirma no dispor de recursos, a menos que receba mais uma parcela da ajuda europeia. As autoridades do bloco se negam a fazer a transferncia se os gregos no deixarem de lado os blefes e assinarem um acordo. Uma reunio emergencial (mais uma) foi marcada para a segunda-feira. Para o bem ou para o mal, o dramalho finalmente se aproxima de seu desfecho. O cenrio mais favorvel seria, sem dvida, um acordo. O dilogo ficou ainda mais  complicado por causa da crescente convico, entre os europeus, de que o Syriza no  digno de confiana e  incapaz de cumprir o prometido. Enquanto isso, a Grcia, que esboava uma retomada, voltou a mergulhar na recesso. Sair do euro seria uma tragdia, conforme deixou claro, em um relatrio divulgado na semana passada, o banco central do pas: "A sada do euro resultaria no aprofundamento da recesso, em uma queda dramtica na renda e em um aumento exponencial do desemprego. Seria o colapso de tudo aquilo que a Grcia alcanou ao longo dos anos como integrante da Unio Europeia". Deixar de pagar a dvida traria ganhos ilusrios, porque arruinaria os bancos locais, deixaria o pas sem crdito externo e teria o potencial de fazer a inflao disparar, num cenrio similar ao da Argentina ps-calote. A populao sabe disso e apoia, em sua maioria, a manuteno do euro. 

OS CENRIOS PARA O DRAMALHO
O novo governo grego tentou blefar com os europeus e renegociar o plano de ajuste financeiro. Deixou a economia  beira do abismo.

1- A GRCIA CEDE E ASSINA UM ACORDO - Os negociadores gregos deixam de blefar, baixam o tom do populismo, conquistam concesses dos credores e selam um novo pacto.
Consequncias - A Grcia permanece no bloco dos pases que usam o euro e obtm acesso a emprstimos externos. Evita assim corrida aos bancos, mas ter de passar um longo perodo de arrocho - alm de enfrentar os protestos contra o corte de gastos pblicos.

2- A GRCIA D O CALOTE, MAS FICA NO EURO - O pas continua a usar o euro, mas deixa de pagar seus credores europeus e ao FMI.
Consequncias - Sem um acordo, o pas no ter acesso ao crdito externo. Para evitar a falncia dos bancos, certamente haveria controle de saques e de transferncia de capitais. Provavelmente seria preciso emitir uma moeda paralela para quitar as despesas internas, reservando euros para importaes de produtos essenciais. 

3- GREXIT: A GRCIA SAI DO EURO - Os gregos viram as costas para o bloco econmico, abandonam o euro e seguem em voo-solo, retomando o dracma, sua antiga moeda.
Consequncias - Cenrio similar ao da Argentina depois do fim da paridade com o dlar. Sem crdito, o pas precisa imprimir dinheiro para pagar as despesas, jogando lenha na inflao. Os salrios e depsitos bancrios seriam convertidos em dracma, uma moeda que nasceria enfraquecida, o que levaria a um empobrecimento da populao. Apenas o turismo e o pequeno setor exportador ganhariam. 
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5# INTERNACIONAL 24.6.15

     5#1 MACUNAMA EST RINDO  TOA
     5#2 O VOO DA ESPERANA A CARACAS

5#1 MACUNAMA EST RINDO  TOA
O caso da americana Rachel Dolezal, a branca que se fez passar por negra, mostra o que acontece com a interdio da mestiagem  e quase se pode ouvir nosso heri sem carter a indagar: "Mas  proibido lavar o pretume e ficar branco loiro e de olhos azuizinhos?"
ANDR PETRY

A questo intrigante  entender por que Rachel Dolezal, a mulher branca de 37 anos que se apresentava como negra, chamou tanta ateno nos Estados Unidos. Nascida e criada no Estado de Montana numa famlia de descendentes europeus, Rachel ganhou quatro irmos adotivos, todos negros, durante a adolescncia. Da em diante, comeou uma imerso na cultura negra que a levaria a estudar na Universidade Howard, reduto tradicional de universitrios negros na capital americana, casar-se com um negro, com quem teve um filho, hoje com 13 anos, virar professora universitria de estudos africanos e eleger-se para o comando local da maior entidade de defesa dos direitos civis dos negros, a NAACP. Levou-a, tambm, a bronzear a pele, antes alva e sardenta, encaracolar os cabelos, antes loiros e lisos, e at dizer-se filha de pai negro, falsificando suas origens. 
A histria de uma impostora morreria nos limites de Spokane, cidade de 200.000 habitantes nos confins dos Estados Unidos, se no tivesse tocado no eterno nervo exposto dos americanos  a peripattica questo racial. Se fosse um homem que se vestisse de mulher, trocando seu nome de John para Mary, para concorrer a vereadora pelo National Woman's Party, ningum, alm dos habitantes locais, daria bola para a impostura. Se fosse um mexicano ilegal que andasse se dizendo americano do Texas para chefiar o centro de imigrao no aeroporto de Spokane, o caso morreria ali mesmo. Mas era uma branca que se fazia de negra  e isso, convenhamos,  srio demais. 
Srio demais? Pode-se quase ouvir Macunama, o genial personagem de Mrio de Andrade, rindo  toa. Celebrado na cultura brasileira como o heri sem carter, Macunama era tambm um heri transracial. Nasceu negro e ficou branco no dia em que, ao banhar-se numa gua encantada, lavou seu "pretume" e saiu "branco loiro e de olhos azuizinhos". A transracializao de Macunama  uma escancarada chacota contra essa religio diablica da classificao das "raas". No Brasil, o macunasmo  uma das expresses da mestiagem. Para alegria nacional, o mestio, ou pardo, sempre foi um deboche brasileirssimo  venenosa ideia de pureza racial. Afinal, o pardo  a metade do caminho entre o negro e o branco, no sendo inteiramente nem um nem outro, mas sendo, simultaneamente, ambos.  a valsa do branco maluco.  o samba do crioulo doido.  a maravilhosa ambiguidade brasileira que baguna o coreto racial e joga a ideia de "raas" no lixo dos anacronismos medievais. Faz Macunama gargalhar diante de um caso como o de Rachel Dolezal. 
Nos Estados Unidos, porm, o negcio  srio. Primeiro, porque a mestiagem  historicamente tratada como aberrao. No conjunto de leis da segregao racial que vigorou at a dcada de 60, havia a explcita proibio da miscigenao racial. Em ingls, como a palavra carrega a histria, o vocbulo miscegenation ainda tem conotao negativa. O segundo motivo  que os Estados Unidos conviveram longamente com a regra segundo a qual uma nica gota de sangue negro faz de seu portador um negro. A regra, que remete aos horrores da pureza racial, tinha a vantagem de trazer clareza ao conceito de "raa". Quem tem uma gota de sangue negro  negro. No importa a aparncia. O terceiro motivo  que, embora no haja nenhum resqucio de leis racistas nos Estados Unidos de hoje, persiste entre os americanos a noo ultrapassada de que "raa"  algo objetivo e claramente definido. A atitude de Rachel Dolezal desorganiza essa ordem racial, confunde o que parece to claro, mexe com as cadeiras da mulata. 
Exemplo didtico  a histria de Walter Francis White, pele branca, olhos azuis. No sculo passado, durante quase trs dcadas, White comandou a NAACP nos Estados Unidos e apresentava-se como lder negro sem enfrentar objees. Sua biografia familiar combinava com a ideia racial americana da nica gota. Entre os 32 ancestrais conhecidos de White, cinco eram negros. No importa que 27 fossem brancos. Havia em seu sangue mais do que uma gota de sangue negro. White, obviamente, nunca mentiu nem falsificou seu passado e, nisso, merece o respeito que Dolezal no pode reivindicar. O fato  que, por ter seus cinco ancestrais negros, White podia apresentar-se como negro. Dolezal, dizem seus pais, tem apenas ancestrais alemes, suecos e checos, com uma pitada de sangue indgena. Cad a gota de sangue negro que lhe permitiria dizer que  aquilo que culturalmente sente ser? 
A porca torceu o rabo quando Dolezal, ao ser confrontada com as mentiras sobre sua herana racial numa entrevista depois de renunciar ao cargo na NAACP, deu uma declarao radicalmente singela: "Eu me identifico como negra". Sua declarao trazia a tenebrosa sugesto de que raa no  biologia.  cultura. Culturalmente, por ter irmos adotivos negros, um ex-marido negro e um filho mestio, por ter estudado numa universidade negra e militado contra a opresso dos negros, Dolezal, apesar dos seus pais e antepassados caucasianos, sente-se negra.  uma branca de alma negra. Mas a separao entre raa e cultura  uma ideia altamente perturbadora para os americanos. Para eles, num desdobramento da regra da gota nica, o que define negro ou branco so os ancestrais, que, por sua vez, tambm so definidos por seus ancestrais, numa regresso infinita cujo efeito  o seguinte: o passado define meu lugar no presente. Walter White pode sentir-se negro. Rachel Dolezal no pode. 
A noo de "raa" como cultura j aparece em Casa Grande & Senzala, a obra colossal do socilogo Gilberto Freyre. A certa altura de seu clssico, ao descrever as evidncias da miscigenao brasileira, Freyre escreve: "Na ternura, na mmica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na msica, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que  expresso sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influncia negra". A mestiagem brasileira, ensina Freyre,  mais do que racial:  cultural. E no h nada mais subversivo que isso para os racialistas de ontem e hoje, no Brasil e nos Estados Unidos. 
Em que pese a tradio da mestiagem no Brasil, no  impossvel que, no futuro, aparea entre ns um caso semelhante ao que mesmerizou os EUA na semana passada. O Estado  primeiro com timidez, no governo Fernando Henrique, e depois com extroverso, no governo Lula  comeou a exigir que a populao assuma uma identidade racial, de modo que se possam aplicar as polticas compensatrias de ao afirmativa.  a primeira vez na histria do pas que isso acontece. At agora, os censos demogrficos feitos pelo IBGE mostram que os brasileiros esto zombando da exigncia estatal. A cada censo, cresce o nmero de cidados que se autodefinem como pardos. Na ltima dcada, passaram de 38% para 43% da populao. Ocorre que,  sombra da gota nica de sangue negro inventada pelos americanos, a burocracia brasileira, para efeito dos programas raciais, define pardos como negros, enterrando na Lapinha aquela maravilhosa ambiguidade nacional. O combate  discriminao racial, da qual os negros so vtimas, devia vir com o fim da ideia medieval de raa. Do contrrio, uma hora surgir uma Rachel Dolezal brasileira. 

EM BUSCA DE UM MOTIVO
Por trs das chacinas nos Estados Unidos h quase sempre um desajustado com arma na mo. Dylann Roof, que matou nove pessoas na quarta-feira 17, dentro de uma igreja frequentada por negros na cidade de Charleston, na Carolina do Sul, consumia drogas, mudava constantemente de escola e nos ltimos anos passou a viver recluso. Ele j tinha sido preso duas vezes. Uma, pela posse de Suboxone, um narctico usado para tratara dependncia de herona. Outra, por entrar em um local designado a ele como proibido, um shopping, onde fora flagrado fazendo perguntas inconvenientes sobre horrios de trabalho a funcionrios de uma loja. Neste ano, Roof comprou uma pistola calibre .45 com o dinheiro que recebeu em seu aniversrio de 21 anos, em abril. 
Peculiar no seu caso foi o motivo escolhido para externalizar sua ira: a complicada questo racial americana. Segundo testemunhas, Roof entrou na igreja durante uma sesso de estudos bblicos. Depois de uma hora, comeou a atirar, gritando: "Preciso fazer isso. Vocs estupram nossas mulheres e esto dominando nosso pas". Em sua foto no Facebook, ele aparece vestindo uma jaqueta com a bandeira da frica do Sul da era do apartheid e com a da Rodsia, atual Zimbbue. Nos boletins policiais preenchidos nas detenes anteriores, Dylann deu seu nome do meio como "Storm", popular entre supremacistas brancos. Preso logo depois do massacre, disse ter a inteno de iniciar uma guerra racial. 
A Igreja Episcopal Metodista Africana Emanuel  frequentada s por negros e foi palco de um discurso de Martin Luther King nos anos 1960. "Essa igreja se desenvolveu historicamente como sendo de escravos africanos. Seus descendentes no podiam rezar ao lado de brancos nem ocupar posies de liderana em igrejas brancas", diz a psicloga americana Anita Thomas, especializada em identidade racial da Universidade de Loyola, nos Estados Unidos. "Teria sido muito incomum que um jovem branco assistisse a um culto de estudos da Bblia l." Na semana passada, Roof uniu sua loucura com as cicatrizes raciais ainda abertas dos americanos.
PAULA PAULI


5#2 O VOO DA ESPERANA A CARACAS
Para o governo petista, dar apoio a presos polticos no exterior, como tentaram fazer oito senadores brasileiros, no pode. Paparicar representantes de um narcoestado, sim.
LEONARDO COUTINHO

O episdio no motivou nenhum repdio pblico da presidente Dilma Rousseff, apenas um comentrio nos bastidores de que a oposio criou um "constrangimento" ao Brasil. Oito senadores brasileiros de cinco partidos (dois da base aliada do governo) desembarcaram na Venezuela, na quinta-feira 18, em uma misso oficial com o objetivo de visitar o poltico oposicionista Leopoldo Lpez, que est preso, sem julgamento, desde fevereiro de 2014. O micro-nibus que os transportava foi impedido de seguir viagem por uma horda de militantes chavistas escalados para hostilizar os representantes do Parlamento brasileiro. Aos gritos de "Fora!" e "Chvez no morreu, multiplicou-se!" os agressores cercaram o veculo e passaram a esmurr-lo. Os policiais que faziam a escolta dos brasileiros no apartaram a multido, e o nibus acabou retido em um congestionamento. A polcia alegou que fora preciso interromper o trnsito para a limpeza de um tnel. O nico caminho alternativo tambm no era uma opo, porque supostamente estava bloqueado para a transferncia de presos. Um agente da Guarda Nacional Bolivariana designado para a segurana dos senadores, porm, admitiu  Folha de S.Paulo que o governo venezuelano mandou sabotar a locomoo dos brasileiros. "Quando vem uma autoridade estrangeira, ns a escoltamos em fluxo, contrafluxo ou qualquer circunstncia", disse o policial. Os senadores foram obrigados a voltar para o aeroporto. O hangar destinado a autoridades estava fechado. Depois de algumas horas na rua, a comitiva conseguiu voltar ao Brasil sob a troa de petistas e chavistas. "O que aconteceu foi uma emboscada com a cumplicidade do governo brasileiro", disse o senador Acio Neves (PSDB-MG). 
Os parlamentares brasileiros viveram por algumas horas o que a oposio venezuelana enfrenta diariamente. No surpreende que a Venezuela, pas com uma ditadura disfarada de democracia, cometa violaes contra seus cidados, persiga seus opositores e trate com desrespeito as autoridades de um pas vizinho. O constrangedor  que a presidente brasileira silencie sobre os abusos  e ainda receba seus perpetradores de braos abertos no Palcio do Planalto. H duas semanas, Dilma no enrubesceu ao se deixar fotografar com Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e investigado pela polcia antinarcticos dos Estados Unidos por sua participao no Cartel dos Sis, a maior rede de distribuio de cocana a partir da Venezuela. Na mesma semana, Cabello visitou o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, empresas e o Congresso. 
O governo brasileiro tambm no se incomodou quando, no ms passado, um representante de Caracas usou o espao que lhe foi dado pelo PT em uma comisso do Senado para chamar os parlamentares brasileiros de covardes e antiticos, por causa de uma moo aprovada pela Casa que condenava as prises arbitrrias no seu pas. Tampouco se tem conhecimento de que algum no Planalto tenha se indignado quando, em outubro de 2014, a Polcia Federal prendeu a bab dos filhos do ministro venezuelano Elias Jaua tentando ingressar com um revlver no Brasil. Jaua esteve no Brasil para assinar convnios com o MST, sem avisar o Itamaraty. E ningum o impediu de ir e vir. 
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6# GERAL 24.6.15

     6#1 GENTE
     6#2 RELIGIO  O EVANGELHO VERDE DE FRANCISCO
     6#3 ESPECIAL  VOANDO PARA O FUTURO

6#1 GENTE
FERNANDA ALLEGRETTI, KARINA MORAIS E THAIS BOTELHO

A NOVA LOLITA DA TV
Com 1,78 metro de altura, 55 quilos e rosto de boneca, no espanta o fato de a modelo CAMILA QUEIROZ, 21, ter chamado a ateno do diretor da Rede Globo Mauro Mendona Filho quando ainda morava e trabalhava em Nova York. Paulista de Ribeiro Preto, Camila foi convidada para estrear na TV como a protagonista de Verdades Secretas, novela de Walcyr Carrasco. "No incio, fiquei um pouco assustada com o enredo de prostituio, mas fiz trs meses de ensaio e me sinto preparada para o que estou gravando", conta. Na trama, sua personagem, Angel, topa participar do esquema denominado book rosa  um catlogo com modelos que aceitam fazer sexo por dinheiro. "Na vida real, nunca fui sondada para fazer parte do book rosa, mas sei que ele existe", diz. 

ROMANCE DIGNO DE FICO
Um escritor de prestgio, ganhador do Prmio Nobel, casado h cinquenta anos, reencontra uma ex-modelo que conheceu nos anos 80 e se apaixona perdidamente a ponto de pr fim ao duradouro casamento. Esse poderia ser o enredo de um livro do peruano MRIO VARGAS LLOSA, 79, mas a reviravolta acontece na vida real do escritor. Depois que a publicao espanhola Hola divulgou fotos dele almoando a dois com a filipina ISABEL PREYSLER, 64, ex-mulher do cantor Jlio Iglesias, Vargas Llosa perdeu o sossego. "Vo achar que sou um artista de cinema", declarou enquanto era assediado por jornalistas. "Confirmo minha separao, mas no falo mais nada a respeito", emendou. Chbeli Iglesias, filha de Isabel, disse que o casal est "feliz e entusiasmado". 

DORES, SUOR E PRESTGIO 
Joelhos e ombros feridos, at dez horas de ensaios dirios e apenas uma folga por semana. Essa  parte da rotina da mineira MARIANA GOMES, 28, primeira bailarina brasileira a ser contratada pelo bale Bolshoi, da Rssia, fundado em 1776 e o mais prestigiado do mundo. "Em Moscou, voc pega um txi e o motorista est ouvindo msica clssica. As pessoas tambm entendem muito de bal e sentem grande orgulho disso", diz. Aps nove anos vivendo na capital russa, ela acredita estar adaptada, mas o comeo no foi fcil. Entre as dificuldades iniciais estavam o idioma e temperaturas de -30 graus. "Viver na Rssia  cruel, pois as pessoas so muito fechadas e voc tem de resolver tudo sozinha.  herana da Unio Sovitica", diz. Mariana est no Brasil para apresentaes dos espetculos Giselle e Spartacus, no Rio de Janeiro e em So Paulo.

COMO CRIAR BICHINHOS FELIZES 
No primeiro de seus sete livros, publicado h dezesseis anos, o zootecnista especializado em comportamento animal ALEXANDRE ROSSI, tambm conhecido como Dr. Pet, incluiu alguns conselhos com os quais hoje no concorda. Por exemplo: dar um pequeno tranco na coleira dos ces para faz-los andar na direo certa. "Quando feitos com fora exagerada, os trancos podem machucar a traqueia do animal", ele admite. Agora, Rossi est lanando uma nova verso do livro, balizado de Adestramento Inteligente, no qual aprimora as tcnicas do primeiro. Ele tambm comemora as setenta franquias de sua empresa de adestramento, que o tornam um dos maiores especialistas do pas em seu ofcio. 

DIETA QUE S ENGORDA
Roupa feita de carne crua, modelito de papel e at a nudez revelada so alguns exemplos da j conhecida  bem calculada e administrada, diga-se  excentricidade da cantora americana LADY GAGA. Adepta de vrias dietas, inclusive da chamada "dieta dos 5" - cinco refeies dirias, compostas de cinco elementos (protenas, lipdios, carboidratos, fibras e lquido), alm de cinco exerccios fsicos por dia, durante cinco semanas (ufa!) -, ela surpreendeu pela silhueta bem mais rechonchuda em um biquni fio-dental (raridade fora do Brasil), durante passeio pelas Bahamas. Mostrou suas tatuagens concentradas do lado  esquerdo. O direito, segundo ela, teria sido preservado a pedido do pai, para "ter ao menos um lado mais normal". 


6#2 RELIGIO  O EVANGELHO VERDE DE FRANCISCO
Na encclica Laudato Si (Louvado Sejas), o papa pe a Igreja Catlica no centro de uma das questes unnimes de hoje  a preocupao com o ambiente.
ADRIANA DIAS LOPES

     No espanta que o primeiro papa a emprestar o nome de So Francisco de Assis, o frade de sandlias que pregava com os pssaros e cantava para o irmo Sol e a irm Lua, dedique uma encclica aos cuidados com o ambiente.  o caso, na leitura das 192 pginas da Laudato Si, Louvado Sejas, de Francisco, o jesuta habituado s armadilhas do peronismo argentino, de entend-la de modo um pouco menos ingnuo. A encclica de Mrio Jorge Bergoglio  uma pea poltica. Sua inteno primeira, alm de atrair simpatia por meio de um tema quase unnime, os desmandos do ser humano na antessala do aquecimento global,  tacar fogo na Conferncia sobre o Clima de Paris, em dezembro prximo, da qual sair um documento para substituir o Protocolo de Kyoto, caducado depois de dez anos, e que estipulava as metas de emisso dos gases que provocam o chamado efeito estufa. Os Estados Unidos no o assinaram, mas vo pr sua rubrica agora, sobretudo porque Barack Obama, em fim de mandato, nada mais tem a perder. "As encclicas no so feitas no vcuo", diz o arcebispo de Miami, Thomas Wenski. "Elas tm longa tradio de aplicar os ensinamentos morais do catolicismo a problemas sociais contemporneos." As primeiras encclicas de um papado, longas meditaes sobre algum tema de extrema relevncia, costumam ser consideradas programticas para o resto do pontificado. A Laudato Si  a carta de intenes de Francisco. Diz dom Srgio da Rocha, presidente da Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil: "A importncia deste texto vai muito alm da Igreja". 
     "A desigualdade no afeta apenas os indivduos, mas pases inteiros, e obriga a pensar numa tica das relaes internacionais (...). O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns pases ricos tem repercusses nos lugares mais pobres da Terra, especialmente na frica, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das cultivaes. (...) A dvida externa dos pases pobres transformou-se num instrumento de controle, mas no se d o mesmo com a dvida ecolgica."  
     No h, nas palavras de Francisco divulgadas com pompa e circunstncia na semana passada, a virulncia contra o livre mercado de seus dias inaugurais como Vigrio de Cristo. Em sua exortao apostlica, a Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), de 2013, ele afirmou que "enquanto os problemas dos mais pobres no forem radicalmente resolvidos atravs da rejeio da absoluta autonomia dos mercados e da especulao financeira, e atacando as causas estruturais da desigualdade, no encontraremos soluo para os problemas do mundo". Agora no, Francisco foi menos incisivo, mais cauteloso, nitidamente sensato. 
     A  Laudato Si poderia ter sido escrita pelos cientistas que compem o Painel Intergovernamental sobre Mudanas Climticas (IPCC), vencedor do Nobel da Paz, embora depois tenham mergulhado em sucessivos escndalos de malversao de estatsticas a servio de uma causa nobre. 
     " verdade que h outros fatores (tais como o vulcanismo, as variaes da rbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas numerosos estudos cientficos indicam que a maior parte do aquecimento global das ltimas dcadas  devida  alta concentrao de gases de efeito estufa (anidrido carbnico, metano, xido de azoto, e outros) emitidos, sobretudo, por causa da atividade humana." 
     Pode parecer, numa leitura apressada, que Francisco acena aos cticos para quem o aquecimento global , sobretudo, resultado de ocorrncias milenares da natureza (o vulcanismo, as variaes da rbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas ele rapidamente d o salto que leva a encclica a andar de mos dadas, como o irmo Sol e a irm Lua, com aqueles que pem no homem a culpa pelos estragos na Terra. Segundo o mais recente relatrio do IPCC, o ser humano tem 95% de responsabilidade sobre as alteraes climticas, e a razo maior  a produo de CO2, atalho para o efeito estufa. Nas ltimas dcadas, apesar de recuos provocados por descuidos e falsificao de dados cientficos, nenhum assunto ganhou unanimidade e tanta certeza quanto a necessidade de frearmos a toada de danos ambientais no mundo industrializado. Elaborar uma encclica com esse tema foi a maneira encontrada por Francisco, formado em qumica numa universidade de Buenos Aires, para dizer que a Igreja Catlica  sempre filha de seu tempo. No seria exagero dizer que a Laudato Si est em p de igualdade com a Rerum Novarum (Das Coisas Novas), de 1891, o grito de Leo XIII pelos direitos trabalhistas em um mundo reinventado pelas fbricas no apogeu da Revoluo Industrial. "Francisco pode encaminhar o que muitos cientistas e lderes nacionais no conseguem fazer", diz o telogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Ncleo de F e Cultura da Pontifcia Universidade Catlica, de So Paulo (PUC-SP).  esse o objetivo do papa argentino, que sabe ser humilde quando o momento exige postura menos arrogante, embora no menos ambiciosa. 
     "Sobre muitas questes concretas, a Igreja no tem motivo para propor uma palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opinies. Basta, porm, olhar a realidade com sinceridade para ver que h uma grande deteriorao da nossa casa comum." 
      extraordinrio ler um documento seminal para a Igreja Catlica que no tem vergonha de admitir sua incapacidade de tudo resolver, reconhecendo as fontes de informaes cientficas como cruciais. J no se queima um Giordano Bruno (1548-1600) por defender o heliocentrismo de Nicolau Coprnico (1473-1543). Galileu Galilei (1564-1642) foi redimido, e o pedido de desculpas ao astrnomo italiano feito por Joo Paulo II em 2000 hoje est estampado no salo principal da Pontifcia Academia de Cincias do Vaticano. Ali, em abril passado, foi organizada uma conferncia sobre mudanas climticas e pobreza que serviu de rascunho para a encclica. Os lderes religiosos sentaram-se  esquerda. Os cientistas, de frente para os prelados. No pdio central, logo abaixo do busto de Joo Paulo II, emoldurado pela absolvio de Galileu, estava o secretrio-geral  da ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon. Foi uma cena afeita aos novos tempos de dilogo, este que agora culminou na encclica de Francisco. H grandeza em usar a cincia para uma carta religiosa. Grandeza que chega a faltar ao IPCC, antes de admitir seus deslizes, entidade que muitas vezes transformou cincia em religio, a ponto de rechaar inclusive prmios Nobel que apenas pediam mais discusso e menos perorao, que pediam resultados  frente de convices, por mais honrosas que fossem. 
     "Em vez de resolver os problemas dos pobres e pensar num mundo diferente, alguns se limitam a propor uma reduo da natalidade (...). Culpar o incremento demogrfico em vez do consumismo exacerbado e seletivo de alguns  uma forma de no enfrentar os problemas. Pretende-se, assim, legitimar o modelo distributivo atual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporo que seria impossvel generalizar, porque o planeta no poderia sequer conter os resduos de tal consumo." 
      prematuro e errado concluir que a Igreja tenha posto, como nunca antes, as evidncias sempre acima dos dogmas na Laudato Si. No  assim, e  da natureza do catolicismo que no seja.  natural, portanto, que Francisco condene a contracepo e o controle da populao como estratgias apropriadas para conter os parcos recursos naturais da Terra. A Igreja, nesse ponto, vai contra o senso comum, at mesmo contra o bom-senso, e parece no enxergar que uma populao de 10 bilhes de pessoas em 2050, como se estima, ser insustentvel. Mas no cabe a uma encclica resolver os problemas do mundo no avesso de suas convices. Cabe a ela demarcar os limites da f catlica, questionar opinies consideradas erradas, encorajar evolues na Igreja e determinar prioridades. E, como efeito tambm desejado, provocar discusses. Jeb Bush, que na semana passada se apresentou como pr-candidato republicano  sucesso de Obama, estrilou, e era esperado que estrilasse, como catlico fervoroso e avesso ao controle ambiental proposto na encclica. "Espero no ser castigado por dizer isto, mas minha poltica econmica no vem dos meus bispos, dos meus cardeais ou do meu papa." 
     Um dos pastores intelectuais da Igreja, Santo Agostinho (354-430), que est entre os mais fascinantes filsofos da civilizao, refletiu incansavelmente sobre a origem do mal. "E, uma vez que Deus, sendo bom, fez todas as coisas, donde vem ento o mal?" A concluso parcial de Agostinho: "Deus no  o autor do mal, porque  o autor de todo o bem. O mal  apenas uma deficincia, uma privao do ser, decorrente do uso equivocado de um bem  o livre-arbtrio". Sem a mesma elegncia teolgica, mas com magnfica e bela clareza, a Laudato Si tem tambm esse poder de atrair interesse e fazer histria, iluminando um impasse de nosso tempo, a respeito do qual a Igreja no pode silenciar. 
     "A humanidade entrou numa nova era, em que o poder da tecnologia nos pe diante de uma encruzilhada. Somos herdeiros de dois sculos de ondas enormes de mudanas: a mquina a vapor, a ferrovia, o telgrafo, a eletricidade, o automvel, o avio, as indstrias qumicas, a medicina moderna, a informtica e, mais recentemente, a revoluo digital, a robtica, as biotecnologias e as nanotecnologias.  justo que nos alegremos com esses progressos e nos entusiasmemos  vista das amplas possibilidades que nos abrem essas novidades incessantes, porque 'a cincia e a tecnologia so um produto estupendo da criatividade humana que Deus nos deu'. (...) Cada poca tende a desenvolver uma reduzida autoconscincia dos prprios limites. Por isso,  possvel que hoje a humanidade no se d conta da seriedade dos desafios que se lhe apresentam, e 'cresce continuamente a possibilidade de o homem fazer mau uso de seu poder'." 

NO ESPRITO DO TEMPO
As mais respeitadas e influentes encclicas papais sempre andaram de mos dadas com o momento histrico do qual so filhas.

AS SEIS ENCCLICAS MAIS INFLUENTES... 
1740 - Ubi Primum (To Pronto Como) 
Bento XIV 
Momento histrico - A racionalidade e o cartesianismo cientfico nascidos com o Iluminismo puseram os dogmas cristos em xeque 
A posio da Igreja - A primeira encclica da histria reforou um ponto seminal da Igreja: a rgida formao intelectual dos prelados e o apego incondicional  conduta moral no magistrio eclesistico.

1891 - Remm Novarum (Das Coisas Novas) 
Leo XIII 
Momento histrico - No apogeu da Revoluo Industrial, a filosofia marxista comeou a brotar com o vigor das ideias que ao nascer parecem boas mas o tempo trata de limar. Explodiam os movimentos de esquerda dentro das fbricas da Europa e dos Estados Unidos em defesa do proletariado 
A posio da Igreja - O documento discorreu sobre as polticas trabalhistas e defendeu o direito  organizao sindical, alm de sugerir condies dignas aos empregados, como salrio justo.

1893 - Providentissimus Deus (Sobre o Estudo da Sagrada Escritura) 
Leo XIII 
Momento histrico - Um dos resultados da sociedade nascida com a Revoluo Industrial foi a busca por uma leitura menos literal da Bblia e mais associada aos novos tempos 
A posio da Igreja - O papa reforou o uso do livro sagrado como fonte de ensinamento moral. O documento tambm incentivou a leitura da Bblia por leigos catlicos. O Providentissimus Deus  a Carta Magna dos estudos bblicos.

1963 - Pacem in Terris (Paz na Terra) 
Joo XXIII
Momento histrico - O mundo tinha acabado de escapar do fim nuclear, depois da crise dos msseis cubanos de 1962, quando a Unio Sovitica e os Estados Unidos flertaram com a guerra definitiva 
A posio da Igreja -  uma das encclicas mais citadas, um chamado pela justia e pelos direitos humanos.  tida como base intelectual pela luta por liberdade nos pases-satlite da Unio Sovitica, apesar de Joo XXIII ser celebrado como um papa  esquerda.

1968 - Humanae Vitae (Sobre a Vida Humana) 
Paulo VI 
Momento histrico - Paz & amor. O sexo livre. A emancipao feminina. A plula. Faa amor, no faa guerra. Marco de mudanas no comportamento da sociedade, os anos 60 encurralaram o catolicismo 
A posio da Igreja - Sua mais conhecida e ruidosa determinao foi a proibio do uso de mtodos contraceptivos .

1979 - Redemptor Hominis (O Redentor do Homem) 
Joo Paulo II 
Momento histrico - Nos estertores da Guerra Fria, o bloco comunista comeava a fazer gua, incapaz de conter suas contradies 
A posio da Igreja - Joo Paulo II criticou o comunismo, sem nome-lo. "O atesmo  planejado, organizado e estruturado como um sistema poltico." O documento inspiraria, um ano depois, a criao do Solidariedade, na Polnia, movimento que ajudou a implementar mudanas na poltica do pas e a derrubar o Muro de Berlim, dez anos depois. 

...E TRS QUE AINDA PODEM SER ESCRITA
2115 - Artificialis Intelligentia (Da Inteligncia Artificial) 
Francisco II 
Momento histrico - A era da singularidade. Os computadores ultrapassam a capacidade de raciocnio e processamento de ideias do crebro humano 
A posio da Igreja - O segundo papa jesuta escreve sua primeira encclica adaptando-a da Rerum Novarum, de Leo XIII, e pondo no centro da cena tambm os robs como filhos de Deus.

2215  - Humanitas Aliis (Bondade com os Outros) 
Joo XXIV 
Momento histrico - Depois de sculos de intensa busca, finalmente os cientistas da Nasa encontraram vida extraterrestre 
A posio da Igreja - O texto papal ajudou os fiis a lidar com as estranhas figuras, de conceitos morais diversos dos nossos, humanos.

2315 - De Immortalitate (Da Imortalidade) 
Francisco III 
Momento histrico - Os avanos da medicina gentica levaram os homens a viver mais de 1000 anos. Falar em imortalidade deixou de ser um antema 
A posio da Igreja - Em um texto de difcil travessia, com vastas citaes bblicas, Francisco III faz a pergunta que no quer calar: o que ser do reino dos cus se todos ns continuarmos na vida terrena, sem morrer? 

AS PALAVRAS DE UM PAPA
Um pontfice registra suas ideias para a posteridade, e as divulga para os fiis, por meio de um lote de vrios documentos, escolhidos para cada ocasio histrica. Saiba quais so eles, em ordem de solenidade, da esquerda para a direita.

PARA TRATAR DE QUESTES DOUTRINAIS E PASTORAIS
ENCCLICA - O texto esmia em longas pginas os temas referentes  doutrina e  pastoral, como cultura, economia e, agora, no caso da Laudato Si, de Francisco, os cuidados com o ambiente 
Exemplo: escrita pelo papa Pio XII, em 1950, a Humani Generis  um texto contundente. Foi o primeiro documento pontifcio a abrir caminho para a aceitao da evoluo das espcies na Igreja Catlica.

EXORTAO APOSTLICA -  semelhante  encclica, mas publicada sempre depois dos snodos, as assembleias dos bispos.
Exemplo: a Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho) de 2013. Nela, Francisco discorre sobre a evangelizao, a pobreza e a desigualdade e ainda criticou o livre mercado.

CARTA APOSTLICA - Os papas a utilizam para tratar de questes mais pontuais. Os textos costumam ser menores que os da encclica e da exortao apostlica.
Exemplo: a Ordinatio Sacerdotalis (Ordenao Sacerdotal). Em 1994, Joo Paulo II escreveu sobre a ordenao sacerdotal, reforando a ideia de que a doutrina  um privilgio dos homens. "A Igreja no se considera autorizada a admitir as mulheres  ordenao sacerdotal, afirma a Carta.

PARA TRATAR DE QUESTES LEGISLATIVAS DA IGREJA
CONSTITUIO APOSTLICA -  o mais solene documento do mbito legislativo.  utilizado normalmente para decretar dogmas da Igreja. 
Exemplo: na Ineffabilis Deus (Deus Inefvel), o papa Pio IX, em 1854, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceio de Maria. Ou seja, Nossa Senhora era virgem e livre de qualquer pecado quando seu filho, Jesus Cristo foi concebido.

MOTU PROPRIO -  criado por iniciativa exclusiva do papa - e no com base em discusses, assembleias ou ainda por sugesto de cardeais.
Exemplo: o Summorum Pontificum Cura (A Preocupao dos Sumos Pontfices), de Bento XVI, em 2007, regulamentou a possibilidade do uso da liturgia tridentina, um ritual das missas seguido antes do Conclio Vaticano II, quando  as celebraes so feitas em latim.

BULA - O termo bula diz respeito  apresentao dos documentos, e no a seu contedo. O escrito, curto, leva um selo de chumbo prximo ao nome do pontfice. 
Exemplo: o documento pode ser utilizado para nomear bispos, criar dioceses e convocar conclios ecumnicos, os grandes encontros de autoridades eclesisticas.


6#3 ESPECIAL  VOANDO PARA O FUTURO
Sem alarde, como  de seu estilo, a Finlndia, smbolo da excelncia no ensino, lidera o movimento global para revolucionar a sala de aula e criar as bases da escola para o nosso tempo.
MONICA WEINBERG, DE HELSINQUE 

     Todo mundo admira a lendria neutralidade da Sua, que se permitiu passar ilesa pelas duas guerras mundiais que devastaram a Europa no sculo passado. Injustamente, porm, quase ningum conhece a histrica altivez da Finlndia, que rechaou pelas armas dois poderosos invasores, os soviticos e os nazistas  conseguindo tambm atravessar a Guerra Fria sem aderir ideologicamente a nenhum dos lados que, entre 1947 e 1991, polarizaram o mundo entre comunismo e capitalismo. Na cano Lets Do It, de Cole Porter, os finlandeses aparecem s depois dos pssaros, das pulgas, dos lituanos, espanhis e holandeses em sua hipntica lista de seres que se apaixonam na primavera. Mesmo tendo dado ao mundo o escorredor de pratos e os celulares Nokia, o destino da Finlndia no  ser famosa. Assim, a revoluo educacional gestada nas escolas de l est silenciosamente lanando as bases da educao que vai ajudar a moldar o ensino em todo o mundo no decorrer do sculo XXI. VEJA foi a Helsinque testemunhar essa saga, narrada em detalhes nas pginas seguintes desta reportagem. 
     Crianas ora hipnotizadas pela tela do computador, bem  vontade s de meias, ora ao ar livre e gelado, dissecando a geologia de uma paisagem que tem como marco uma slida rocha encravada entre os pinheiros, como se fosse um parque temtico sobre a era glacial. Bem-vindo  Finlndia, o pas que se notabilizou como um dos melhores do mundo na educao, mas que, mesmo assim, j finca os pilares do ensino do futuro. Fale com qualquer professor de l, da 1 srie  universidade, e ouvir, como uma bem orquestrada sinfonia de Sibelius, o grande compositor finlands, orgulho nacional: precisamos de uma escola que leve os alunos ao limite de suas potencialidades, que os prepare para um mundo cada vez mais globalizado e os ensine a se adaptar ao novo, a se virar diante do inesperado, a criar e a inovar. Que a lio se faa ouvir por aqui, onde agora se debate justamente o primeiro currculo escolar brasileiro. 
     Nenhum pas que tem a educao como prioridade est alheio  discusso que inflama as rodas especializadas e afeta a vida de pais e estudantes: o que ensinar a crianas que no necessitam mais do saber enciclopdico, j que tm acesso a informao de qualidade ao toque do mouse, mas devem ser talhadas para enfrentar problemas e ofcios que nem sequer se imagina quais sero? "Mais do que acumular dados, o aluno precisa aprender a aprender, porque a toda hora surge um conhecimento novo e relevante no planeta", resumiu a VEJA o fsico alemo Andreas Schleicher, diretor da rea de educao na OCDE (organizao que rene as naes mais desenvolvidas). No fim do ano passado, lderes de toda parte encontraram-se em Genebra para falar do currculo do sculo XXI. Houve consenso de que  preciso preservar os contedos essenciais, ter coragem para eliminar o resto e dar lugar na escola ao desenvolvimento de habilidades requeridas no mercado de trabalho, como resilincia, capacidade de produzir em equipe, comunicao, abertura ao risco, criatividade. A Finlndia forou ainda mais a barra e decidiu tornar menos estanques as divises entre as matrias, ensinando-as muitas vezes ao mesmo tempo. A ousadia, vinda do pas que lidera rankings mundiais de ensino, ocupou as manchetes. Seria o comeo do fim das disciplinas? 
     "Os conceitos bsicos de cada matria continuaro a ser ensinados com metas claras e elevadas, ainda que as fronteiras entre elas fiquem mais flexveis", garante Leena Maija Niemi, 42 anos, vice-diretora da escola Kasavuori, a meia hora da capital, Helsinque, espcie de laboratrio dos novos tempos plantado em meio  floresta. Ali, v-se uma mescla de economia, geografia, histria, demografia, estudos sociais e finlands num projeto chamado Minhas Razes, um dos vrios em curso, em que cada adolescente produz vasto material sobre a cidade de seus pais, avs ou tios. Nessa abordagem de "aprendizado baseado em projetos", professores de vrias reas planejam as aulas em conjunto. Fomentam independncia para pesquisar e colaborao. No se pem  frente da classe a ministrar interminveis aulas expositivas, mas vo de mesa em mesa, resolvendo dvidas e renovando desafios. Especialistas de Singapura, Estados Unidos, Mxico, Espanha e Tailndia j agendaram visitas  escola Kasavuori para conhecer o modelo que, a partir do prximo ano, far parte do currculo mnimo obrigatrio da Finlndia. 
     De certa maneira, as inovaes finlandesas so um reencontro com um passado glorioso. Na Atenas clssica, o ensino era baseado em desafios que demandavam vrias reas do saber para ser solucionados. O mentor respondia a uma pergunta com outra mais difcil, um problema levava ao seguinte, em um voo pela razo balizado pelo rigor da geometria e pela lgica, mas impulsionado pelas asas da poesia. A realidade  multidisciplinar e requer diversos domnios para ser abarcada em toda a sua complexidade. Os gregos sabiam disso. Os finlandeses esto provando que essa e outras abordagens do passado, embora esquecidas no tempo, nunca perderam seu valor. H um sculo, o filsofo e matemtico ingls Alfred North Whitehead escreveu The Aims of Education ("Os objetivos da educao"), um libelo contra o academicismo e a compartimentao dos campos do saber. "Nas nossas escolas a contradio  vista como uma derrota, quando deveria ser o primeiro passo rumo ao conhecimento real." Whitehead preconizava tambm o trabalho cooperativo. Encontra-se muito das ideias dele na adaptao das escolas da Finlndia  dinmica do mundo atual e s exigncias da economia globalizada e conectada. 
     Na dcada de 70, a Finlndia decidiu promover uma virada crucial no ensino. Era um tempo em que metade da populao ainda vivia na zona rural e a economia dependia das flutuaes do preo da madeira  passado que soa remoto diante do atual desempenho do pas na corrida global: a chamada "terra dos 1000 lagos" (exatamente 187.000) e dos 2 milhes de saunas (uma para cada 2,7 habitantes) desponta entre os cinco primeiros nos rankings mundiais de competitividade, inovao e transparncia. Sua capital lidera o mais recente teste de honestidade da revista Reader's Digest, baseado em quantas de doze carteiras com 50 dlares deixadas em lugares-chave pela revista foram entregues de volta a seus donos ou  polcia. Em Helsinque, onze das doze carteiras foram devolvidas  no Rio de Janeiro, quatro, o mesmo nmero de Zurique. 
     No espere encontrar na Finlndia a rigidez tpica de outros campees do ensino, como Coreia do Sul ou China. Enquanto a palavra de ordem na sia  estudar noite e dia, nessas bandas da Escandinvia a rotina escolar  mais suave, com jornadas de cinco horas e lio na medida certa para sobrar tempo para "relaxar"  esse  o verbo de que os finlandeses gostam. Que no se confunda isso com indisciplina ou pouca ambio. Foi s a Finlndia perder posies no ranking da OCDE (ficou em sexto lugar no ltimo) e o exame nacional mostrar certa queda para soar o alerta e o rumo ser corrigido. Os novos tempos so de construo do conhecimento em rede, uns colaborando com os outros, como nas rodas acadmicas. Tambm  visvel a mudana na conduo da aula pelo professor, que s vezes nem mesa tem; a ideia  que ele palestre menos e guie mais o voo dos estudantes. Os mestres no so coadjuvantes, como em muitas experincias que se autointitulam inovadoras, mas o centro de uma reviravolta sustentada em delicado equilbrio. "O segredo est em no achar que flexibilidade  o mesmo que anarquia", pondera a doutora em educao Kristiina Kumpulainen, da Universidade de Helsinque. 
     A tarefa de saber qual contedo deve sobreviver  afiada peneira deste sculo no  simples, mas vem sendo testada com sinais de sucesso, e no s na Finlndia. Tambm na vanguarda do ensino, o distrito de Colmbia Britnica, no Canad, encontra-se em pleno processo de separar o descartvel do essencial. "Com uma grade de matrias to pesada, as crianas no estavam aprendendo a pensar", reconhece Rod Allen, envolvido na misso de reescrever o currculo. Os canadenses continuaro a estudar os fundamentos da democracia grega e por que todos os caminhos levavam a Roma, mas no precisaro mais "sobrevoar", como diz Allen, todas as civilizaes da Antiguidade. "No lugar de cinquenta tpicos mal absorvidos, vamos agrup-los em dez ou doze grandes reas, enfatizando os conceitos realmente valiosos", explica ele, que ainda esclarece: datas, pessoas e eventos importantes seguem firmes na cartilha. O Japo percorre trilha semelhante. Enxugou em 30% seu currculo para ceder espao s habilidades to em voga. No h nada de modismo a. Os japoneses perceberam que os postos de trabalho que envolvem atividades rotineiras e baseadas em um nico tipo de conhecimento esto sendo varridos por aqueles movidos a desafios mais imprevisveis e complexos, que exigem flexibilidade de pensamento e de postura. Mas em um ponto ningum mexe: ler um livro por semana foi,  e sempre ser sagrado. 
     H dcadas se fala da importncia de ensinar habilidades comportamentais, ou socioemocionais, como se diz no meio, como persistncia e autodisciplina. H dcadas tambm elas vm sendo subestimadas nas escolas, ainda que, nos anos 80, o americano James Heckman, prmio Nobel de Economia, tenha demonstrado em pesquisas que so to ou mais determinantes para o sucesso futuro do que as tradicionais matrias  e, sim, podem ser incentivadas. Mas,  medida que a cadeia produtiva muda sua lgica, exigindo cada vez mais capacidade de resoluo de problemas e de adaptao em todos os nveis, o alerta de Heckman se faz reverberar na educao. Um estudo do Instituto Ayrton Senna refora as palavras do Nobel trazendo os nmeros  realidade brasileira: alunos mais perseverantes e organizados aprendem em um ano letivo cerca de um tero mais em matemtica do que os outros; a abertura ao novo e a coragem de empreender e errar produzem o mesmo efeito positivo em lngua portuguesa. "Existe o princpio geral de que s o que d para medir tem valor. Pois j conhecemos bem o peso dessas habilidades que soam to abstratas", observa Oliver John, professor da Universidade da Califrnia, em Berkeley, e consultor da OCDE no projeto de criar um termmetro universal para aferi-las. 
     E o Brasil nisso? Bem, enquanto pases como Finlndia e Austrlia, outro caso de sucesso, revisam seu currculo a cada dez anos e a Coreia do Sul j cravou a stima edio do seu, o Brasil no tem nenhum. Isso mesmo: aterrissamos no sculo XXI sem um consenso nacional sobre o que o aluno deve aprender a cada ano em cada disciplina. A principal razo para to profundo atraso  de cunho ideolgico. Uma turma de educadores ainda acha que um script com objetivos e metas de aprendizado em comum engessaria a liberdade de lecionar e daria as costas s diferenas. "Confundem at hoje estrutura com camisa de fora", diz Denis Mizne, diretor executivo da Fundao Lemann e integrante de um grupo de especialistas que debatem o teor do currculo brasileiro por vir. Previso: 2016. 
     Envolvido na confeco desse currculo, o ministro da Secretaria de Assuntos Estratgicos, Mangabeira Unger, fez uma ala de pensadores tremular com suas afirmaes a propsito do tema. Disse o ministro, acertadamente: "A tradio no Brasil  de enciclopedismo raso". A proposta conduzida por ele, portanto, mira diminuir quantidade em prol de profundidade, mas no s isso: "Desenvolver competncias deve ser a principal misso da escola". Ele se refere, por exemplo, a saber ler e interpretar e afiar o raciocnio lgico. O que tirou o sono de especialistas foi a aparente contraposio que Unger fez entre contedos e competncias (justamente relacionadas  utilizao do conhecimento acumulado), como se fossem excludentes. "No h contedos consagrados nem obrigatrios, sobretudo nos anos escolares mais avanados", defendeu ele a VEJA. "Tambm no podemos produzir um currculo engessado, que cale o experimentalismo vigoroso", foi alm. Mas garantiu: a ideia  ter metas e orientaes para docentes. A ver. Como professores que tropeam no bsico daro conta da transio para algo que s agora pases bem mais evoludos no ensino esto fazendo? 
     Muitas ressalvas cabem na comparao entre Brasil e Finlndia  a comear pela populao: os finlandeses so 5,5 milhes com cultura homognea e pouca disparidade de renda; j ns, 200 milhes com todo tipo de diversidade. Tambm eles no tm o mau hbito de mudar o curso da educao a cada troca de governo. A Finlndia adota um sistema parlamentarista com presidente da Repblica que favorece coalizes entre quase todos os partidos. Tal estabilidade poltica contribuiu para a implantao de um sistema em que 99% das escolas so pblicas e igualmente boas, segundo notou a OCDE. Tamanho  o valor que se d  sala de aula que, mesmo na universidade, ningum desembolsa um tosto. Ao contrrio: os alunos ganham at bolsas para arcar com moradia. "No precisamos mudar de cidade atrs de um bom ensino porque ele est por toda parte", conta a enfermeira Kirsi Ojala-Kinnunen, 42 anos, me de trs filhos e uma entre os 35.000 habitantes da buclica Tuusula, onde vive em uma casa de madeira tpica do ps-II Guerra, com o conforto que todas essas residncias tm  sauna para enfrentar o frio e as noites sem fim. Olhar para eles pode ajudar o Brasil a deixar a prpria zona glacial: a dos ltimos do mundo na educao.

FILNDIA 7 X 0 BRASIL
A educao finlandesa ganha todas na comparao com a brasileira.

POSIO NOS RANKINS DA OCDE
Finlndia: 4 vezes entre os cinco primeiros
Brasil: 3 vezes entre os cinco ltimos

PROFESSORES DO ENSINO FUNDAMENTAL COM MESTRADO
Finlndia: 100%
Brasil: 1%

CARGA HORRIA DOS ALUNOS (horas por anos)
Finlndia: 901
Brasil: 800

SALRIO MDIO DOS PROFESSORES (em dlares por anos)
Finlndia: 42.800
Brasil: 14.800

POSIO NO RANKING DE COMPETITIVIDADE (entre 144 pases)
Finlndia: 4
Brasil: 57

POSIO NO RANKING MUNDIAL DA INOVAO (entre 143 pases)
Finlndia: 4
Brasil: 61

INSTITUIES MAIS RESPEITADAS
Finlndia: 1 Escolas; 2 Foras Armadas; 3 Judicirio
Brasil: 1 Bombeiros; 2 Igreja; 3 Foras Armadas


EDUCAO  AQUI - A famlia Kinnunen vive na pequena Tuusula, dominada por casas de madeira ao estilo ps-II Guerra.  ali que a enfermeira Kirsi e o funcionrio pblico Niko, ambos de 42 anos, matricularam os filhos Juho, 14, Aino, 12, e Eino, 6. "No h diferena de qualidade entre os colgios na Finlndia", explica Kirsi, que, como todo bom finlands, confia plenamente na escola e l tudo o que sai sobre ensino. "A educao foi crucial para pr esse pas to distante e gelado nas manchetes do mundo", orgulha-se. 

MO NA MASSA - Alunos em ao dentro e fora da sala de aula: na escola Kasavuori, o estudo de geologia se d em torno de uma rocha da era glacial; na escola Masala, um projeto envolve o estudo de geometria a partir da observao das formas de um museu local.

MENOS  MAIS - A reforma no currculo tambm est em curso no Canad e no Japo: contedo enxuto e espao para aprimorar habilidades como persistncia e criatividade, essenciais para o mercado de trabalho deste sculo.

QUANDO D AQUELE CLIQUE
Mestre em negcios na rea de tecnologia, Juhani Mykknen, 30 anos, pertence  turma de finlandeses que respiram o mundo digital. Do tipo que dispara nas palavras, ele no sentiu embarao em ligar para o Ministrio da Educao e vender sua ideia, ao lado da colega Linda Liukas, 27 anos: um livreto com um passo a passo leve e direto de como ensinar nas escolas programao de sistemas - parte do currculo obrigatrio da Finlndia que comea a valer no ano que vem. Acabou emplacando o Koodi (cdigo) 2016. "As pessoas precisam dominar minimamente a linguagem do computador. Quem no investir nisso vai ficar para trs", diz, com dados: se seu pas no acelerar, acumular um dficit de 17.000 programadores em quatro anos. Juhani acaba de instalar sua startup no prdio cheio de ao e vidro onde ficava a Nokia, encolhida depois que a diviso de celulares foi vendida  Microsoft. Alm de cogumelos e morangos, brotam aos montes em solo finlands empresas do tipo da dele. Foram 600 s em 2013. O sistema as favorece. Se conseguem atrair dinheiro de investidores estrangeiros, o governo d a elas uma parcela equivalente sem cobrar nada - o retorno vir em futuros impostos. Isso ajuda a explicar por que a Finlndia recebeu 12% de todo o capital investido na Europa em novas empresas,  frente at da Alemanha, mesmo concentrando menos de 1% da populao do continente. No apenas a Nokia mas outras marcas globais nasceram ali, como Linux, GSM, Internet Relay Chat e Rovio, que produziu a onda mundial Angry Birds e mantm um vvido laboratrio de experimentos em educao na Universidade de Helsinque. As tecnologias abrem a possibilidade de personalizar o ensino, massificar a excelncia e instigar a criatividade. A propsito, Juhani  o criador do aplicativo Wolt, que encurta a espera em centenas de restaurantes da capital. Voc clica, paga e recebe o pedido, sem fila. 

TUDO  NEVE, TUDO  NOVO
A primeira impresso da Finlndia? Neve, neve, neve. Mas o choque maior para o grupo de 35 professores brasileiros que esto passando ali uma temporada para aprimorar-se entre os melhores do mundo veio mesmo da sala de aula. No Brasil, eles lecionam nos institutos federais, que oferecem do nvel mdio  ps-graduao e tm vis tcnico. Para chegarem  Finlndia, venceram a peneira do CNPq, que d as bolsas. Esto se esbaldando com as novidades no campo pedaggico: ensino  base de projetos, problemas, games, laboratrios e alta colaborao. A ideia  disseminar essas prticas pelo Brasil. "Aqui os alunos desenvolvem projetos junto a empresas e fazem pesquisa para valer, tudo muito eficaz e conectado ao mundo real", diz Joelma Kremer, 45 anos, integrante da turma de professores, que ficar no pas por cinco meses. Depois, eles sero supervisionados por mais sete no Brasil. "As escolas finlandesas no tm luxo, mas boas prticas. No vejo por que no replic-las", fala Bruno Garcs, 26 anos, baseado na Universidade de Cincias Aplicadas Tamk, em Tampere, a 180 quilmetros de Helsinque. Curiosidade: s vsperas do vero, o gelo por l j havia derretido, mas os termmetros no passavam dos 10 graus. Tinha at brasileiro sentindo calor.
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7# ARTES E ESPETCULOS 24.5.25

     7#1 TELEVISO  O DONO DA VERDADE
     7#2 LIVROS  UMA LUZ PARA O ISL
     7#3 LIVROS  MERCADO SEM COMPADRES
     7#4 CINEMA  EMOES VISVEIS
     7#5 CINEMA  RESSENTIMENTO QUARENTO
     7#6 VEJA RECOMENDA
     7#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#8 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  POBRE CONSTITUIO

7#1 TELEVISO  O DONO DA VERDADE
Com a segunda temporada da srie True Detective, Nic Pizzolatto se firma como nova estrela da elite criativa que faz a TV americana ser a potncia que   os roteiristas.
MARCELO MARTHE

     O policial Ray Velcoro  um pobre-diabo ao quadrado. Fazendo jus ao sentido consagrado da expresso, ele  alcolatra, solitrio e pai infeliz que projeta suas frustraes no filho. Com uma agravante melanclica: o menino gordinho pode no ser filho biolgico do personagem interpretado pelo irlands Colin Farrell na segunda temporada da srie True Detective  que ter estreia simultnea nos Estados Unidos e no Brasil neste domingo, 21, s 22 horas, pela HBO. Sua mulher foi estuprada, e o crime coincide com a presumvel poca de concepo do garoto. Divorciado, o policial no quer saber de teste de paternidade: o menino, afinal,  uma das poucas coisas que animam sua existncia. Com seu bigodo cafajeste, Velcoro tambm  um pobre diabo, sem hfen, no sentido demonaco: policial truculento e corrupto, presta servicinhos brutais para a mfia que liga a prefeitura de uma cidade industrial na Grande Los Angeles a um empresrio com ar de capo, Frank Semyon (Vince Vaughn). Os dois costumam se encontrar em um bar escuro e decadente  o tipo de cena que o roteirista da srie, Nic Pizzolatto, escreve com conhecimento de causa. Ex-barman, ele saltou do ocaso para a consagrao graas a True Detective. 
     Pizzolatto manteve-se fiel aos preceitos das chamadas "sries de antologia" na nova leva de episdios. Teve peito de dispensar os personagens vividos pelos carismticos Matthew McConaughey e Woody Harrelson para recomear tudo do zero com outro elenco. Em vez da trama gtica ambientada na Louisiana rural, o cenrio  uma Los Angeles noir. O enredo tem algo de Chinatown, filme de 1974 do diretor Roman Polanski: um crime com tempero sexual ameaa a construo de uma ferrovia e tumultua o esquema em que Semyon e, de arrasto, Velcoro esto imersos. No  preciso teste de paternidade para verificar que o DNA do autor est l. Como tambm ocorre em seu primeiro romance, Galveston, de 2010 (que est ganhando edio no Brasil pela Intrnseca), Pizzolatto confere autenticidade a tipos que carregam cicatrizes da violncia e exalam desalento. A se manter o bom ritmo do novo True Detective, ele confirmar seu lugar na elite dos roteiristas que fazem da TV americana a potncia criativa que . 
     A ascenso fulminante de Pizzolatto, de 39 anos, ilustra como os roteiristas se tornaram senhores absolutos da TV americana (veja os quadros). Enquanto no cinema quem d as cartas  o diretor, nas sries de televiso a balana sempre pendeu para aqueles que escrevem as histrias. Desde os anos 90, quando surgiram Famlia Soprano e outras sries que redefiniriam a teledramaturgia americana, a peculiaridade se acentuou. O roteirista teve seu status ampliado ao se converter no showrunner  escritor que faz as vezes de produtor com a ltima palavra sobre cada aspecto de uma srie de TV. O padro de excelncia do ramo  Matthew Weiner, criador da recm-encerrada Mad Men, que embolsou um cache estimado em 30 milhes de dlares por trs anos de trabalho  frente da saga do publicitrio Don Draper. 
     A tomada de poder pelos roteiristas  particularmente eloquente na TV a cabo americana. Pois, do mesmo modo que acontece com os noveleiros brasileiros, os roteiristas das redes de transmisso aberta dos Estados Unidos so escravos de uma injuno incontornvel: quem manda na programao de uma grande rede , em ltima instncia, o departamento comercial. S na TV paga os roteiristas gozam da liberdade de exercitar sua ousadia quase sem amarras. A mais recente amostra disso se deu no fim da quinta temporada da fantasia Game of Thrones. No episdio, a dupla David Benioff e D.B. Weiss mais uma vez sabotou com sadismo as expectativas do pblico. 
     Expoente tpico da era dos escribas estrelados, Pizzolatto nunca deixou dvida sobre sua principal fixao: ter controle total sobre seu trabalho. Por diferenas criativas, ele rompeu com Cary Fukunaga, diretor que conferiu aos oito episdios da primeira temporada de True Detective uma atmosfera que traduzia o tormento dos personagens. A mudana no comprometeu a nova histria, mas h que pagar para ver se algum dos novos tipos se igualar ao memorvel Rust Cohle, papel de McConaughey na temporada anterior. Frank Semyon, mafioso encarnado por Vince Vaughn,  uma figura que conjuga frieza e angstia de bicho acuado. Alm de Velcoro, a investigao do crime que detona a trama inclui outros poos de inquietude  caso de Ani Bezzerides (Rachel McAdams), detetive agoniada com a omisso do pai, um guru hippie. No romance Galveston, a sina dos personagens  parecida: o protagonista Roy  um gngster que, aps saber que tem cncer no pulmo, escapa de uma emboscada e foge com uma jovem prostituta at a costa do Texas. 
     Nas raras entrevistas, Pizzolatto  lacnico sobre quanto h de autobiogrfico nas suas obras. Ele nasceu em Nova Orleans e cresceu em uma cidadezinha marcada pelo fervor religioso, alcoolismo e violncia. Hoje, o escritor com pinta de roqueiro vive recluso com a mulher e a filha de 6 anos nas proximidades de Los Angeles. Ao alimentar a aura de autor rebelde com biografia sofrida, ele d mais um passo no processo de mitificao de seu ofcio: eis que o roteirista projeta sua imagem  maneira de uma celebridade. Nada mais natural para quem se tornou o dono da verdade na TV.

NIC PIZZOLATTO
Principal trabalho: True Detective
Marca registrada: a autenticidade de seus personagens masculinos, que espelham as angstias de um autor que, na juventude, viu de perto a violncia e o desalento.

OS SENHORES DA CRIAO 
A excelncia do roteiro  o grande fundamento da TV paga americana. Veja quem so alguns dos melhores autores de sries 
VINCE GILLIGAN 
Principais trabalhos: Breaking Bad e Better Call Saul. 
Marca registrada: a habilidade de construir poderosos dramas morais a partir da vidinha de tipos como um ressentido professor do ensino mdio e um advogado de porta de cadeia. 

JOHN LOGAN 
Principal trabalho: Penny Dreadful 
Marca registrada: tapearia fina  Logan consegue tecer uma histria absolutamente orgnica por meio da colagem de personagens clebres e citaes histricas e literrias 

ROBERT KIRKMAN 
Principal trabalho: The Walking Dead
Marca registrada: a reinveno de um subgnero do cinema B  a histria de zumbi  como uma distopia que examina a fundo o lado sombrio do ser humano 

D.B. WEISS e DANIEL BENIOFF 
Principal trabalho; Game of Thrones 
Marca registrada: a ousadia sdica de quebrar expectativas  tramas e personagens pelos quais o espectador se apaixona so removidos da histria, quase sempre com violncia 


7#2 LIVROS  UMA LUZ PARA O ISL
Em Herege, Ayaan Hirsi Ali prega uma reforma dos preceitos muulmanos para expurgar a violncia poltica que impede os fiis de se integrar ao mundo moderno.
NELSON ASCHER

     Uma jovem africana, educada segundo os preceitos tradicionalistas de uma religio que determina a submisso total das mulheres,  forada a se casar com um homem que nem sequer conhece. De passagem pela Europa a caminho do pas onde este reside, ela pede asilo na Holanda. Em poucos anos, aprende a lngua local, forma-se numa universidade, rompe com a religio  eleita para o Parlamento do pas e, ao lutar para que outras (e outros) desfrutem os mesmos direitos, comea a ser ameaada por terroristas, um dos quais assassinou brutalmente o cineasta com quem ela fizera um filme. Ainda h pouco tempo, uma trajetria dessas renderia admirao sem ressalvas em meios de esquerda, nos quais a emancipao feminina, o culto  razo e  crtica, assim como o combate s autoridades religiosas e  superstio em geral, eram, por assim dizer, causas sagradas. E, no entanto, Ayaan Hirsi Ali, a escritora de origem somali radicada nos Estados Unidos, tem sido maltratada pela intelectualidade ocidental, que, na hora de se posicionar entre a mulher com a caneta da razo e os homens da metralhadora e das bombas, tergiversa. Mas nem a perptua sombra dos assassinos nem a abjeo dos intelectuais que a chamam de "islamofbica" (neologismo cuja principal funo  suprimir qualquer discusso a respeito do Isl) conseguiram cal-la, e seu novo livro, Herege (traduo de Laura Teixeira Motta e Jussara Simes; Companhia das Letras; 272 pginas; 39,90 reais),  prova disso. 
     Em seus trs livros j publicados no Brasil, Infiel, Nmade e A Virgem na Jaula, a autora se amparava em sua experincia pessoal. Herege traz menos autobiografia e muito mais discusso do Isl, sobretudo de sua violncia poltica atual. Ayaan no compra as explicaes costumeiras para essa violncia  os sculos de opresso e colonialismo etc. Afirma, ao contrrio, que a religio, seu clero e suas escrituras esto, sim, na raiz do problema. A vertente do islamismo que mais cresce hoje em dia , segundo a autora, a dos "muulmanos de Medina", ou seja, a dos fanticos ou fundamentalistas violentos e intolerantes. Por outro lado, os muulmanos convivem cada vez mais com os no muulmanos, e por isso se torna urgente promover uma reforma que permita a essa f e a seus seguidores coexistir em paz com o restante da humanidade e banir a violncia de seu interior. A dificuldade  que o Isl, segundo Ayaan,  inerentemente avesso  inovao estrutural. "Paradoxalmente, o Isl  a mais descentralizada, porm, ao mesmo tempo, a mais rgida religio do mundo. Todo mundo se sente capacitado a proibir uma discusso livre." 
     Resumindo os argumentos da autora, o Isl precisa de uma reforma no menos profunda que a promovida por Lutero no cristianismo, uma reforma que as elites ocidentais poderiam auxiliar parando de inventar desculpas para a violncia e apoiando os muulmanos crticos e reformistas. Ayaan identifica e discute em detalhe cinco preceitos centrais da f "que a tornam resistente  mudana histrica e  adaptao": 1) A posio de Maom como semidivino e infalvel, juntamente com a interpretao literal do Coro; 2) O investimento em uma vida aps a morte em detrimento da vida antes da morte; 3) A charia e o resto da jurisprudncia islmica; 4) A prtica de dar a indivduos o poder de aplicar a lei islmica ditando o certo e proibindo o errado; 5) O imperativo de fazer a jihad, ou guerra santa. A reforma, portanto, pressupe, entre outras coisas, a abertura de novas interpretaes sobre Maom e o Coro, a extino da supremacia da charia sobre a lei secular e o abandono da convocao  jihad. 
     Simplesmente por discutir ideias racionalmente e coloc-las num livro, a autora talvez volte a ser ameaada de morte por alguns, enquanto outros a consideraro moral e politicamente mais nociva do que os candidatos a assassino. Convm reconhecer, porm, que, alm de corajosa, Ayaan Hirsi Ali at que se mostra otimista diante de um panorama desalentador. Como ela mesma diz: "No vejo outro caminho  frente para ns  pelo menos nenhum que no seja juncado de cadveres. O Isl e a modernidade precisam ser conciliados. E isso s pode acontecer se o prprio Isl for modernizado".  

"NO ESTAMOS CHAMANDO A BESTA PELO NOME"
Nascida na Somlia e criada nos preceitos muulmanos mais estritos, Ayaan Hirsi Ali, 45 anos,  hoje uma das mais eloquentes crticas do fundamentalismo. De Londres, por telefone, ela falou com a reprter Fernanda Allegretti sobre a possibilidade de reformar o Isl.

Como deter o extremismo islmico? 
Com uma combinao de fatores. Um deles  o uso da fora militar para dominar grupos como o Estado Islmico e a Al Qaeda. Mas h uma medida essencial: propagar um discurso de conteno. Algum precisa dizer, sobretudo aos mais jovens, que a jihad  ruim, que deve ser rejeitada. 

Quem poderia liderar uma reforma do Isl? 
As mulheres, porque o impacto maior seria na vida delas. Mas outros grupos tambm: LGBT, minorias religiosas ameaadas e ex-muulmanos  a pena para quem deixa o Isl  a morte, ento, esse grupo deveria ser o mais motivado. H reformistas no Isl de hoje. Eles tm um trabalho muito difcil, mas existem. 

Em Herege, os progressistas so alvo de suas crticas. O que eles esto fazendo errado? 
O extremismo islmico  um atentado aos princpios progressistas,  liberdade,  igualdade de gneros. Os progressistas no esto fazendo nada para proteger esses princpios. Ficam calados para no ser acusados de islamofobia, racismo, etnocentrismo. 

Por que as pessoas tm tanto medo de criticar o Isl? 
Sem dvida, por causa da violncia. Ns, ocidentais, temos tanto medo da violncia islmica que no estamos chamando a besta pelo nome. H ainda outra razo: na Europa, os muulmanos so vistos como minoria. E muitos dos lderes dos muulmanos de Medina  designao que uso para os mais radicais  so bons em fazer o papel de vtima. 

Por causa dos conflitos no Oriente Mdio, o Brasil tem recebido muitos refugiados muulmanos. O governo precisa se preocupar em integr-los? 
Prefiro usar o termo "assimilao". Os cidados e o governo precisam agir para assimilar esses imigrantes  sociedade brasileira o mais rpido possvel. Vocs deveriam aprender com os erros dos pases europeus, que agora esto completamente perdidos. Deixem claro o que a sociedade e as leis brasileiras permitem e o que no permitem. Eles precisam optar por adotar o estilo de vida brasileiro ou retornar ao seu pas de origem. 


7#3 LIVROS  MERCADO SEM COMPADRES
O economista italiano Luigi Zingales prega o retorno aos fundamentos da livre concorrncia para salvar o capitalismo da ao do Estado  e de certos capitalistas.
JOEL PINHEIRO DA FONSECA

     A crise econmica de 2008 nos Estados Unidos no quebrou apenas o sistema financeiro: fez ruir a confiana da populao nos valores que moldaram seu pas. O apoio ao capitalismo, que sempre foi trao distintivo da sociedade americana, acabou erodido. Luigi Zingales, professor da Universidade de Chicago,  particularmente sensvel a essa mudana. Isso porque nasceu e se formou na Itlia, onde vivenciou um sistema baseado no favoritismo pessoal e poltico. Foi s na ps-graduao, nos Estados Unidos, que ele conheceu a efetiva meritocracia, na qual talento e dedicao so recompensados e o apadrinhamento no tem a ltima palavra. Esse sistema tambm permite uma criao de riqueza muito maior.  por isso que, ao ver um movimento como o Occupy Wall Street se contrapor a tudo o que os Estados Unidos representam, Zingales se sentiu compelido a escrever Um Capitalismo para o Povo (traduo de Augusto Pacheco Calil; Bei; 268 pginas; 90 reais). O livro no defende, contudo, o capitalismo tal como  praticado hoje em dia, mas aquilo que ele j foi na histria americana e que poderia voltar a ser. 
     O grande trunfo do capitalismo sempre foi a livre concorrncia. A constante seleo dos melhores faz com que a sociedade como um todo ganhe. Quando isso ocorre, as pessoas ficam dispostas at mesmo a tolerar alguma desigualdade, pois, ainda que distantes do topo, sentem sua vida melhorar. Contudo, se a desigualdade aumenta muito e se o trabalho honesto no  recompensado, o sistema pode ruir. Zingales partilha a indignao do Occupy Wall Street. Discorda, contudo, de suas solues, e apresenta um diagnstico mais amplo das razes do problema. No foi apenas a ganncia de banqueiros que gerou a crise. O Estado teve participao decisiva ao se colocar como protetor dos grandes bancos e como incentivador dos investimentos mais imprudentes. 
     A dicotomia entre Estado de um lado e empresas privadas de outro est ultrapassada. Para Zingales, o maior inimigo da mobilidade social e da meritocracia hoje em dia no  o velho socialismo em que o Estado controla tudo, mas o "capitalismo de compadrio". Nesse sistema, algumas poucas corporaes influenciam o governo de modo a entrincheirar-se no poder, principalmente por meio de regulamentaes que as favoream, num processo chamado de "captura regulatria", um dos principais temas do livro. Cada vez mais, grandes empresas pagam altas somas para que lobistas influenciem a deciso de parlamentares. Um subsdio, uma iseno fiscal, uma regulamentao que limite a entrada de novos concorrentes: tudo isso tem retornos muito superiores ao sucesso na competio de mercado. Cada participante defende seu interesse especfico e no sobra ningum para defender a integridade do mercado como um todo.  
     Garantir um mercado mais competitivo passa pela imposio de algumas restries ao comportamento de seus participantes. No temos aqui, portanto, uma doutrinao liberal inflexvel, mas a proposta de medidas que, no cmputo final, diminuam a concentrao excessiva de poder. Zingales chega a uma concluso interessante: regras ineficientes do ponto de vista econmico podem ser desejveis se limitarem a captura do poder poltico.  o caso do Glass-Steagall Act, que vigorou nos EUA at 1999. Essa lei, que exigia a completa separao entre bancos comerciais e bancos de investimento, produzia diversas ineficincias, mas garantiu um mercado competitivo e a diluio do poder dos lobistas. 
     Cabe ao Estado, de maneira geral, estabelecer regras simples, compreensveis para o cidado comum, ao contrrio das regulamentaes com milhares de pginas que se tornaram usuais. Ele deve aplic-las com tolerncia zero para excees. Uma vez que se abre a porta para uma, abre-se potencialmente para todas, e vingaro aquelas com mais cacife para fazer lobby. Para alm do Estado, Zingales atribui um papel importante  sociedade civil, a jornalistas, acadmicos e, em especial, s escolas de negcios. Diz que elas devem abandonar a ideia do lucro a todo custo e prestigiar uma tica cvica de respeito s normas que garantem a sade do mercado a longo prazo. 
     Do incio ao fim, o livro fala sobre  e para  os Estados Unidos. Alguns dados culturais e institucionais que ele pressupe no se aplicam ao Brasil, que estaria mais prximo da Itlia. A prpria prtica do lobby no tem aqui a legalidade nem a transparncia do caso americano. Apesar dessas diferenas, tambm vivemos um capitalismo de compadrio com muita captura regulatria. Vale a pena, portanto, ouvir Zingales. O povo brasileiro merece uma dose de capitalismo. 


7#4 CINEMA  EMOES VISVEIS
Em Divertida Mente, o estdio de animao Pixar leva o espectador a uma viagem pela mente de uma criana que tenta se adaptar a difceis mudanas em sua vida.
JERONIMO TEIXEIRA

     A neurocincia  das mais fascinantes reas de pesquisa da atualidade. E tambm das mais complexas: as razes bioqumicas das emoes e os mecanismos da memria de curto e de longo prazo, a rigor j bem complicados para o adulto leigo, no so matria para criana. Ou so? O novo filme do estdio de animao Pixar, Divertida Mente (Inside Out, Estados Unidos, 2015), j em cartaz, passa-se quase inteiramente dentro da cabea de uma criana. Riley, uma menina que deixa para trs escola, time de hquei e amigos quando sua famlia se muda do Meio-Oeste americano para So Francisco, na Califrnia,  relegada ao papel de coadjuvante pelas foras em ao dentro de seu crebro. A luminosa Alegria e a gorduchinha Tristeza so as heronas da histria, secundadas por um nervoso trio: Raiva, convencionalmente vermelho e literalmente inflamvel (sua cabea s vezes pega fogo), Medo, um tipo esqulido e histrico, e Nojinho, que  verde e esnobe, mas tambm charmosa. 
     Alm de buscar inspirao em mudanas comportamentais da prpria filha, o diretor e roteirista Pete Docter  o mesmo de Monstros S.A. e Up  embrenhou-se na literatura de divulgao cientfica para fazer o filme. Uma neurocientista da Universidade de Berkeley que atuou como consultora da produo diz que, em termos de acurada, Divertida Mente merece  nota 9. Mas isso no deve intimidar o espectador leigo: no h nada de excessivamente tcnico em cena, e os conceitos da neurocincia, quando aparecem, ganham uma traduo visual to engenhosa quanto didtica. No se trata aqui de abrir fisicamente o crnio de Riley, nem de colocar neurnios ou sinapses na tela: o que se v no  a fisiologia do crebro, mas sim uma traduo fantasiosa da geografia da mente. No meio da turbulncia emocional deflagrada pelas mudanas na vida de Riley, Alegria e Tristeza  que, como seria de prever, nem sempre se entendem muito bem  so desalojadas da sala de controle onde ajudam a manipular as reaes da menina e comeam uma longa jornada por paisagens fantsticas: as labirnticas prateleiras da memria, a exuberante e colorida imaginao infantil, o subconsciente com seus pesadelos, os estdios onde se produzem sonhos, a rea lgubre e sombria do esquecimento. Um melanclico amigo imaginrio da primeira infncia de Riley junta-se a elas, na esperana de no ser esquecido pela menina. Mandona a ponto de s vezes se tornar insuportvel, Alegria vai aos poucos compreendendo que seus esforos para sempre escantear Tristeza no ajudam Riley a superar os problemas da adaptao a uma nova vida. Sim,  um desenho animado, colorido e cheio de ao e gracinhas, mas, no centro da histria, est a constatao de que a tristeza  um fundamento inescapvel da nossa economia emocional. 
     A Pixar, depois de recauchutar personagens populares em sequncias dispensveis (Universidade Monstros) ou francamente ruins (Carros 2), demonstra mais uma vez que conhece a fundo a delicada psicologia infantil. O momento em que Riley, afinal, se permite chorar deve levar uma boa poro do pblico a chorar com ela. O estdio pioneiro da animao digital abriu a cabea de uma criana (com eventuais vislumbres tambm da mente de seus pais) para reconquistar uma primazia que vinha perdendo para os concorrentes  ou at para a companhia-irm Disney, cujo Frozen eclipsou um tanto a investida da Pixar no filme de princesa, Valente. O pano de fundo cientfico talvez seja acessrio: ao colocar Alegria e Tristeza muito literalmente em cena, Docter e seus colegas parecem reafirmar que ningum como a Pixar entende de emoes.  


7#5 CINEMA  RESSENTIMENTO QUARENTO
Em Enquanto Somos Jovens, um choque geracional feroz como desde 1968 no se via.

     Para o diretor Noah Baumbach, ningum sai bem na foto: nem a sua gerao, representada por Josh e Cornelia (Ben Stiller e Naomi Watts), nem a de Jamie e Darby (Adam Driver e Amanda Seyfried), o jovem casal com quem eles travam uma amizade em Enquanto Somos Jovens (While We're Young, Estados Unidos, 2014), j em cartaz no pas. Como Baumbach (de A Lula e a Baleia e Francs Ha), Josh e Cornelia esto nos 40 e sofrem de vrios dos males associados  sua gerao: indeciso, adolescncia prolongada, um desencanto generalizado que se manifesta como inao. Josh est h uma dcada editando um mesmo documentrio. Tambm Cornelia se encontra estagnada: seu trabalho, desde sempre,  produzir os filmes de seu pai. Neste momento, esto ambos se sentindo acossados pelo entusiasmo de seus melhores amigos, que acabaram de ter um beb. J Jamie e Darby, de seus 20 e poucos anos, no parecem sofrer de males e indecises: aos olhos de Josh (que eles abordam depois de uma aula e a quem cativam cobrindo-o de elogios), seus novos amigos so o que ele gostaria de ter sido  atuantes e ligados no mundo, mas sem neuroses, e fadados ao sucesso. 
     O olhar de Josh, claro,  um bocado mope: no seu encanto pelo estilo hipster de Jamie e Darby (ele  aspirante a documentarista, ela faz sorvetes), que s ouvem discos de vinil e vem filmes em videocassete, e usam chapu e sapato sem meia, ele no se d conta de que no  uma inspirao para Jamie.  apenas mais um arquivo a ser compartilhado  e ento esquecido. A stira do diretor ao medo dos quarentes de admitir que no so mais jovens  afiada; j sua stira aos tica e existencialmente desimpedidos Jamie e Darby  sulfrica na preciso com que retrata uma gerao que acha que est inventando o mundo do princpio e que parece determinada a erradicar a gerao anterior com uma fria que desde 1968 no se via. "Sou velho, sim", berra Josh para Jamie perto do final. E, pela primeira vez, a admisso soa no como derrota, mas como triunfo. 
ISABELA BOSCOV


7#6 VEJA RECOMENDA
CINEMA 
O CIDADO DO ANO (KRAFTIDIOTEN, NORUEGA/SUCIA, 2014. J EM CARTAZ NO PAS.)
 Em um confim gelado da Noruega, o sueco Nils (Stellan Skarsgard) leva uma vida exemplar, abrindo as estradas com seu limpa-neve para que os moradores de seu vilarejo remoto no fiquem isolados do mundo. O mundo e todas as suas vicissitudes, porm, chegaro at ele de forma trgica, com o assassinato de seu filho inocente por traficantes. Inconformado  no que se possa adivinhar tanta ira sob seu contido semblante escandinavo , Nils decide tomar a justia em suas mos, matando os culpados um a um, em ordem inversa de hierarquia.  medida que o saldo de fatalidades dispara (e ele chegar a uma contagem espantosa), duas gangues rivais de traficantes, uma norueguesa, liderada pelo bandido vegano Ole (PaL Sverre Hagen), e a outra servia, sob o comando do gngster velha-guarda Papa (Bruno Ganz), atribuem uma  outra o estrago, e partem para a guerra. O diretor noruegus Hans Petter Moland  evidentemente um f dos faroestes espaguete de SErgio Leone, em especial Era Uma Vez no Oeste, e um apreciador do humor entre o absurdista e o sardnico de Quentin Tarantino  o que no significa que seu western na neve no seja inteiramente original, alm de sensacional.

DISCO
THE DAY IS MY ENEMY, THE PRODIGY (LAB 344)
 Em 1997, o trio ingls de msica eletrnica era to popular que at o atraso no lanamento de seu disco virava notcia. As lojas da Europa e dos Estados Unidos pregavam cartazes pedindo pacincia aos fs da banda, pois o celebrado The Fat of the Land demoraria mais algumas semanas para chegar s prateleiras. O produtor Liam Howlett e os vocalistas Keith Flint e Maxim Reality j no tm a mesma popularidade de anos atrs. Mas continuam a incendiar os festivais nos quais se apresentam, e ainda lanam timos lbuns. The Day Is My Enemy rompe um silncio de seis anos. Num terreno hoje dominado pelo dubstep ou por DJs-celebridades como Avicii e David Guetta,  louvvel que Howlett tenha mantido o estilo que consagrou o grupo ingls  ainda que sua msica ganhe uma sonoridade contempornea pelas mos do produtor Flux Pavillion (especialmente na faixa Rhythm Bomb). So batidas ferozes, com guitarras distorcidas, vocais para ser gritados em estdios e ttulos raivosos como Nasty, Destroy e Wall of Death. Pancadaria danante e deliciosa.

LIVROS
THE BEATLES, DE HUNTER DAVIES (TRADUO DE ELISA CHRISTOPHE; BESTSELLER; 602 PGINAS; 65 REAIS)
  quase simblico que este relato clssico da histria dos Beatles chegue s livrarias poucos dias depois de o Supremo Tribunal Federal decretar o fim da autorizao prvia para biografias no Brasil. O jornalista escocs Hunter Davies passou dois anos entrevistando os Beatles, seus amigos e familiares para lanar, em 1968, um retrato sem verniz e nem sempre simptico do quarteto de Liverpool (e nenhum de seus membros fez objees ao livro). John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr so vistos desde a infncia de classe mdia baixa, incluindo o histrico de violncia da famlia de Lennon. Tambm se narram as maquinaes de Harrison para a defeco do baterista Pete Best (substitudo por Ringo) e o cime que McCartney sentia de todos que se aproximavam de Lennon. The Beatles termina em 1968, quando o grupo tinha acabado de lanar o filme Magical Mistery Tour  uma bomba repudiada por pblico e crtica. Mas Hunter Davies atualizou a obra: embora no tenha mexido no texto original, publicou novos captulos para contar o fim da banda e a morte de alguns dos personagens. 

OS DEZ MANDAMENTOS (+UM), DE LUIZ FELIPE POND (TRS ESTRELAS; 128 PGINAS; 29,90 REAIS)
 "Deus  o conceito mais complexo j criado pela filosofia e enfrent-lo  um desafio para qualquer intelecto apaixonado pelos limites do pensamento", diz o filsofo Luiz Felipe Pond na introduo deste pequeno ensaio de teologia. No entanto, ele tambm se declara "um homem sem f" e reivindica a influncia do alemo Friedrich Nietzsche, filsofo conhecido pela demolidora crtica ao cristianismo. O livro  um comentrio livre e instigante sobre cada um dos conhecidos dez mandamentos que Deus entregou a Moiss. Pond afasta-se das religies institucionais, mas rejeita, com mais vigor ainda, a pretenso moderninha de que os ensinamentos bblicos sejam coisa opressiva e ultrapassada. Seu objetivo  tentar recuperar um sentido profundo de espiritualidade em um mundo de relativismo e ressentimento. H provocaes diversas contra vrias igrejinhas profanas da atualidade ("Este livro no  escrito para feministas, que, alis, nada entendem de mulher", diz ele no comentrio sobre o nono mandamento, "No desejars a mulher do prximo"). O autor ainda arrisca um 11 mandamento contra o pessimismo fcil que tenta tantos de ns hoje: "Ters esperana no mundo".

TELEVISO
THE BRINK, ESTREIA NESTE DOMINGO, 21, S 23H30, NA HBO)
 Amarrado  cama, Walter Larson (Tim Robbins) extasia-se em sesso de sexo com uma dominatrix oriental. Mas sua secretria corta o barato: como secretrio de Estado americano, ele est sendo convocado s pressas pelo presidente. A razo  a fictcia crise externa que serve de mote para esta comdia, digamos, geopoltica: um golpe levou ao poder no Paquisto um general maluco que ameaa destruir Israel. Ao mesmo tempo, nas ruas da cidade paquistanesa de Islamabad, Alex Talbot (Jack Black), funcionrio da Embaixada dos Estados Unidos, tem seu carro incendiado pela turba em fria depois de obrigar seu motorista a lev-lo a uma quebrada  um ponto de venda de maconha. O terceiro eixo de The Brink no  menos inslito: aps consumir por engano uma substncia igualmente suspeita, o piloto Zeke Tilson (Pablo Schreiber), lotado em uma base americana no Golfo Prsico, decola com seu avio de combate rumo ao Paquisto. Com rajadas impagveis de incorreo poltica, a srie no deixa pedra sobre pedra em sua stira  poltica internacional. Repare, por sinal, que seu sonso presidente dos Estados Unidos  a cara de Barack Obama. 


7#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE
2- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
3- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
4- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA 
5- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito 
6- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO
7- As Espis do Dia D. Ken Follet. ARQUEIRO 
8- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE
9- Invaso do Mundo da Superfcie. Mark Cheverton. GALERA RECORD 
10- Simplesmente Acontece. Cecelia Ahern. NOVO CONCEITO

NO FICO
1- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
2- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS
3- 1808. Laurentino Gomes. GLOBO 
4- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
5- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS 
6- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA
7- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA
8- Uma Breve Histria do Tempo, Stephen Hawking. INTRNSECA
9- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA 
10- Malala  A Menina que Queria Ir para a Escola. Adriana Carranca. COMPANHIA DAS LETRAS

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE
3- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
4- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva.  SEXTANTE
5- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
6- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA 
7- Negocie Qualquer Coisa com Qualquer Pessoa. Eduardo Ferraz. GENTE
8- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE 
9- O Poder da Escolha. Zbia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
10- Sementes entre Lgrimas. Padre Antonio Jos. PETRA


7#8 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  POBRE CONSTITUIO
     A Constituio brasileira  a vtima do momento, na balbrdia reinante em Braslia. Com a autoridade da presidente no cho, o ministrio ( exceo da Fazenda) inoperante, o PT disputando com a oposio quem incomoda mais o governo e o Congresso despirocado, os predadores esto soltos. A situao  comparvel  de Tbilisi, a capital da repblica caucasiana da Gergia, onde uma enchente na semana passada provocou, entre outros estragos, a inundao do zoolgico e a disperso dos animais pela cidade. Deu-se ento, segundo inventariou o The New York Times, que um urso foi flagrado tentando se equilibrar na janela de um 2 andar, um crocodilo foi visto a espreitar os carros parados numa rodovia intransitvel e um hipoptamo acabou pendurado nos galhos de uma rvore. Aqui, a dona do zoolgico, de medo de ser demitida, demitiu-se, os funcionrios entregaram os pontos e as feras se jogam cada uma a um naco do texto constitucional. A ltima vtima  o artigo 228, aquele que declara que so penalmente inimputveis os menores de 18 anos. Ele veio se juntar aos atentados contra a ordem constitucional que, j h algumas semanas, so disparados pela "reforma poltica" do deputado Eduardo Cunha.  
     A questo da maioridade penal no tem soluo fcil. Supor o contrrio  enredar-se na famosa definio de H.L. Mencken: "Para todo problema complexo h uma soluo clara, simples  e errada". A diminuio para 16 anos foi aprovada na semana passada pela comisso especial da Cmara criada para tratar do assunto. Ao cabo de longa e tumultuada sesso, os deputados vencedores saram cantando "Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor", como nos estdios. O Congresso hoje  isso. Um dia um grupo toma conta do plenrio para rezar o pai-nosso; noutro, uma turba avana como torcida organizada. A princpio, o projeto diminuiria a idade e ponto-final. Passaria a valer para todos os crimes. Era isso que queria a chamada "bancada da bala", cujas solues to bem se enquadram  lei de Mencken. Em negociao com os mais recalcitrantes, acabou-se por deli  delimitar a punibilidade a um rol determinado de crimes. Aos capitulados como hediondos (basicamente, homicdio qualificado, sequestro e estupro) se juntariam, entre outros, o assalto a mo armada, a leso corporal grave e o trfico de drogas. 
     Melhorou, mas o rol  longo, e aberto a efeitos perversos. Como observou o deputado petista Alessandro Molon, um jovem que aceita levar maconha a um consumidor ser enquadrado, mas se explodir um caixa de banco, no. Para nossa sorte, o projeto foi, por enquanto, aprovado apenas em comisso. Falta o plenrio da Cmara confirm-lo  em dois turnos, pois  projeto de emenda constitucional, aos quais se seguiro dois turnos no Senado. Sorte, tambm, que outro projeto, em tramitao no Senado, de autoria do senador Jos Serra, prev a simples ampliao, para oito anos, do prazo de internao dos menores, e unicamente em casos de crime hediondo. Esse projeto muda o Estatuto da Criana e do Adolescente sem mexer na Constituio, na qual o artigo 228 permaneceria intacto. Eis sua maior virtude. 
     A Constituio  a casa da me joana. Tudo cabe nela. A "reforma poltica" de Eduardo Cunha, que j havia determinado enfiar no texto constitucional a permisso para as empresas financiarem partidos e candidatos, enfiou na semana passada, para duplicar nossa vergonha, tambm que as urnas eletrnicas geraro papelotes onde o voto ser impresso. E, para triplic-la, ainda aprovou, na mesma penada, a fidelidade partidria e a licena para, durante um ms, uma vez promulgadas as reformas, os parlamentares mudarem de partido. A fidelidade e a infidelidade foram ao mesmo tempo consagradas na pobre da Constituio. Hipoptamo em rvore, crocodilo na estrada e urso na janela, como em Tbilisi,  fichinha perto do que ocorre em Braslia. 
     Se  para encarar de frente e a srio a questo da segurana pblica, o ponto de partida seria a reforma do sistema penitencirio. O ministro da Justia, ao argumentar contra a diminuio da maioridade penal, disse que no se pode jogar os jovens nas "escolas de crime" que so as prises brasileiras. Como se ele no tivesse nada a ver com isso. Como se a situao nas prises fosse um dado da natureza, contra o qual no h como lutar. As prises no so apenas escolas do crime. So tambm quartis-generais de onde o crime  comandado. Mais proveitoso seria se, com a mesma energia com que hoje se batem em torno da maioridade penal, governo, Congresso e sociedade atacassem os mltiplos problemas das prises, da humanizao de suas condies  falta de vigilncia sobre as atividades dos presos e  promiscuidade entre condenados de idades diferentes e autores de crimes de diferente gravidade. 

